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✍️ Na última ediçãoPatrocínio: Nubank, Bud Light e como se envolver com a paixão do cliente

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Paris, Abril de 2021. Lockdown.

Eu era diretor de marketing da Swile, vendendo um vale que passa em todos os lugares enquanto todos os lugares estavam fechados e as pessoas, proibidas de sair de casa.

O principal benefício do nosso produto estava comprometido. É assim que começa a história da nossa mais icônica campanha.

Como as pessoas não podiam sair, todas as empresas voltaram seus esforços para o digital e a mídia OOH ficou completamente vacante, afinal ninguém estava out of home.

Com a agência Steve Paris, compramos 5.570 outdoors espalhados nas ruas, ônibus e estações de metrô de Paris, Lyon, Marselha, Bordeaux e Toulouse com uma mensagem:

Swile, la carte la plus inutile du moment.
O cartão mais inútil do momento.

70% mais acessos no site.
25.000% de aumento no volume de buscas.
Cobertura na CB News, Stratégies, L'ADN, DansTaPub.

A lógica da ação era simples: OOH estava barato, muitas marcas estavam em silêncio e a mensagem radical quebrou o padrão de comunicação institucional, provocou conversas e foi fácil de levar para online.

Esse tipo de iniciativa, que se alavanca mais em criatividade do que em dinheiro, é um ótimo recurso para startups que enfrentam concorrentes muito maiores, mas me questiono porque é tão incomum, considerando que o brasileiro nasce com diploma de marketing.

A arma do pequeno contra o grande

O marketing de guerrilha é uma inspiração literal do mundo militar: grupos pequenos usando táticas inesperadas contra exércitos maiores.

Apesar de ter surgido na década de 90, encontrei uma definição acadêmica e rigorosa (Hutter e Hoffmann, da Technical University of Dresden) em um estudo de 2011 que definiu as características os três efeitos simultâneos que uma ação de guerrilha deve ter:

  1. Efeito surpresa: Quebrar expectativas. O público é confrontado com algo inesperado num contexto onde não esperava ver publicidade. Pode ser absurdo, humor, choque, ou simplesmente algo no lugar errado.

  2. Efeito de difusão: A ação se espalha sozinha. As pessoas compartilham porque querem, é o boca a boca (presencial e digital) que amplifica o alcance muito além do investimento original.

  3. Efeito de baixo custo: Alcançar muitos com pouco. O princípio mais básico da guerrilha é que você não consegue competir em nível de recursos, então compete na ideia.

Os autores também definiram 5 ferramentas que são utilizadas pelo marketing de guerrilha para provocar esses efeitos:

  1. Ambiente: usar o ambiente urbano de formas inesperadas (adesivos em lugares estranhos, intervenções em mobiliário urbano, objetos em espaços públicos)

  2. Sensações: ações únicas, irreproduzíveis, que geram experiência no público (stunts, eventos-surpresa, performances)

  3. Viralidade: conteúdo feito pra se espalhar (vídeo, meme, ação filmada que roda nas redes)

  4. Buzz: gerar conversa antes, durante e depois de um lançamento ou ação

  5. Emboscada: se inserir na conversa de um evento ou momento cultural sem pagar o patrocínio oficial

Isso me lembra quando a Rappi chegou ao Brasil e distribuiu bonés laranjas na porta de um festival (era o Lolla?) ou quando promoveu a troca das mochilas dos entregadores e distribuiu camisetas com proteção UV.

A marca estava usando o ambiente para se promover.

Essa é a beleza do conceito, e o motivo pelo qual escrevo esta edição, táticas de guerrilha foram pensadas para que pequenos grupos pudessem derrubar grandes exércitos. Em marketing, é a tática perfeita pra quem não tem orçamentos milionários e ainda assim precisa fazer muito barulho.

É a funda de Davi contra Golias.

Ainda assim, os melhores exemplos de marketing de guerrilha vem de empresas que não precisariam disso, como McDonalds, BK e Nike. O que está faltando para a gente ser mais ousado e provocativo?

3 elementos que deixaram startups covardes

Quando fui pesquisar cases de guerrilha de startups brasileiras pra escrever essa edição, achei pouca coisa.

O conteúdo sobre marketing de guerrilha é 95% reciclagem de cases internacionais (McDonald's, Coca-Cola, Red Bull Stratos) e 5% de conselhos genéricos tipo "seja criativo" e "use flash mob".

Encontrei mais cases de startups ou empresas menores no meu repertório do que em análises.

A pergunta óbvia é: por quê? O brasileiro nasce sabendo marketing. O jeitinho brasileiro é, por natureza, guerrilha. Então o que fez as startups se acoverdarem?

Eu identifiquei 3 motivos.

1. A terra prometida dos dados

Nos últimos 15 anos, founders e marqueteiros foram formados pelo playbook do Vale do Silício de performance. CAC, CPA, ROAS, MQLs. Tudo mensurável, tudo rastreável, tudo dentro de uma tela.

Todos em busca do modelo e atribuição perfeito.

O time de growth que dominou a conversa na última década é um time de planilha. (isso não é crítica, é constatação), mas guerrilha não tem pixel, não entra no GA4.

Um dos maiores desafios da guerrilha é justamente a dificuldade de mensurar ROI de forma direta (Hutter & Hoffmann, 2011). Diferente de uma campanha de mídia paga, onde você sabe exatamente quanto gastou e quanto voltou, guerrilha gera earned media, buzz, menções na imprensa, aumento de busca pela marca…

A maioria desses indicadores contribuem indiretamente para o resultado. E isso é “inaceitável”.

2. Falta de repertório criativo (não de criatividade)

O brasileiro é criativo. Mas criatividade sem repertório não produz ação.

Quem cresce consumindo conteúdo de growth hacking americano aprende sobre loops, funnels, automação e A/B testing, não aprende sobre OOH, stunts, ativações de rua, ambush marketing.

O repertório criativo dessa geração de marqueteiros foi formado de frente pra uma tela. Como consequência, sugerir "fazer uma ação de rua" é quase uma blasfêmia, a sala fica em silêncio.

A ideia não é rejeitada porque é ruim, mas porque existe preconceito e faltam referências para transformar a ideia em execução.

3. O medo institucional, não individual

Campanha digital que falha, você pausa, mas o mundo real não vem com essa opção.

Os riscos desse tipo de ação vão muito além da performance e envolvem questões éticas, potencial reação negativa do público e danos à marca se a execução falhar (Tem até estudo sobre isso). O risco é real. Mas quem decide não fazer guerrilha raramente pesa esse risco contra o risco de ser invisível. E invisibilidade também tem custo — só que ninguém calcula.

Me lembrei da Chuva de Twix em São Paulo, que mobilizou mais de 2.000 pessoas e virou hashtag de protesto. #ChuvaDeTwixFail

Mas a oportunidade está aí.

O feed saturou, o CPM subiu e o CTR caiu.
Criação powered by AI deixou tudo com a mesma cara. Não é sobre X, é sobre Y.

Seguimos otimizando nossas campanhas, mas devemos pensar mais sobre a criatividade como alavanca de resultados assimétricos.

2 cases brasileiros + Bônus

#01 Barte: gelo na Faria Lima (Ambiente)

A Barte é uma fintech de pagamentos e corporate banking pra médias e grandes empresas, avaliada em R$1 bilhão e com receita anualizada de R$150M.

Podia estar fazendo webinar e ebook como toda fintech B2B.
Escolheu fazer guerrilha.

No Dia da Mentira, a Barte colocou um bloco de gelo de uma tonelada no meio da Faria Lima e, dentro dele, dinheiro de verdade.

O conceito "quanto custa deixar seu dinheiro congelado?" funciona como uma denúncia visual de adquirentes que retêm repasses por muito tempo, prejudicando o capital de giro de lojistas.

Atores representando executivos circulavam enquanto o gelo derretia. Tudo filmado pra amplificação digital. A escolha da data (Dia da Mentira pra expor uma verdade) e do local (centro financeiro do país) foram decisões cirúrgicas de contexto.

Me lembrou a campanha da WePay, que colocou um cubo de gelo de 300kg com na porta da conferência do PayPal, quando o concorrente estava congelando contas, conquistando milhares de novos usuários em dias.

#02 Swile: CLT Premium (Emboscada)

Em 2024, todo mundo tava reclamando que agosto, setembro e outubro não teriam feriados em dias úteis.

O nosso time estava monitorando social listening e viu o assunto esquentando, então trabalhamos com o RH para criar um novo benefício: todo funcionário podia escolher um dia por mês como "feriado pessoal" nos meses sem feriado oficial. #VaiTerFeriadoSim

Obviamente, o anúncio foi sucesso entre os funcionários e rendeu estrelinha para o RH, mas ainda falta o lado marketing dessa história.

Empacotou a história como pauta de pessoas e gestão e levamos pra imprensa.

45 artigos publicados sobre o assunto (Forbes, Época Negócios, Istoé Dinheiro…)
Matérias no Jornal Nacional e no Bom Dia SP, de graça.
O meu post no LinkedIn, sozinho, teve 3.478.082 impressões.

A Swile se tornou protagonista da conversa nacional sobre flexibilidade no trabalho. Tudo isso custando zero reais.

#03 Bônus: Billie Eillish e o Close Friends

Nem startup, nem B2B, esse exemplo prova que o princípio serve pra todo mundo lendo essa news.

Em abril de 2024, Billie Eilish adicionou todos os 110 milhões de seguidores do Instagram à lista de Close Friends pro lançamento do álbum. De repente, tinha um anel verde brilhando pra todo mundo.

Cada seguidor pensou que tinha sido pessoalmente escolhido e isso gerou um efeito de exclusividade.

Com isso, o perfil ganhou 10 milhões de novos seguidores e "Birds of a Feather" virou a música mais streamada do Spotify em 2024.

Ela subverteu uma feature que existia desde 2018, usou o que já existia de uma forma que ninguém usava. Gosto desse case porque ele é a a essência da guerrilha digital, onde criatividade pode vencer o dinheiro.

Framework: 5 elementos do marketing de guerrilha

Guerrilha parece improviso, mas não é. Pra maximizar as chances de sucesso, você precisa trabalhar dentro de uma estrutura.

#01 Radar de oportunidades

O marketing de guerrilha combate alguma coisa, então é preciso encontrar e nomear o inimigo em comum. Existem 3 lugares para observar.

  • Dores do ICP: Quais são os problemas que seu ICP vive, quais são as situações onde o cliente se enxerga, mesmo que não estejam relacionadas com a sua marca.

  • Tensões culturais: quais datas, eventos, ciclos do setor, polêmicas ou conversas públicas estão acontecendo? (meses sem feriado, olimpíadas, lockdown, CLT premium)

  • Pautas da concorrência: o que seus concorrentes estão fazendo e sobre o que eles estão falando? O que eles defendem abertamente e qual é o teto de vidro deles?

#02 Escolha do instrumento

Nem toda ação de guerrilha é necessariamente um stunt que acontece na rua, como o caso da Barte. É importante saber o que está disponível no seu cardápio.

  1. Ambiente: usar o ambiente urbano de formas inesperadas

  2. Sensações: ações únicas, que geram experiência no público

  3. Viralidade: conteúdo feito pra se espalhar

  4. Buzz: provocar o debate de determinado assunto

  5. Emboscada: cooptar a conversa ou momento de maneira informal

→ Barte: Ambiente e Sensações.
→ Swile: Emboscada e Buzz.
→ Billie Eillish: Viralidade e Buzz

#03 Materialização

A oportunidade existe no abstrato, inclusive ela não é óbvia, ou todos estariam fazendo. A intervenção de guerrilha é o que torna o problema visível e óbvio e, para isso, o público precisa ver, tocar ou sentir aquilo que antes era frustração interna.

  • Qual é o objeto/gesto/imagem que materializa a tensão? Que elementos eu posso usar para reforçar a mensagem?

  • A pessoa entende em 3 segundos? Você trabalha com elemento surpresa, as pessoas não estão esperando você, então como sua mensagem se torna absolutamente explícita?

  • Qual espaço, canal ou funcionalidade posso subverter? O que eu posso utilizar para um propósito diferente do original?

  • Qual inventário de mídia está barato? Que canais estão subutilizados ou baratos neste momento? OOH em baixa temporada, painéis em bairros fora do eixo premium, espaços em eventos que ninguém quer patrocinar.

#04 Amplificação

É comum que a ação de guerrilha seja fisicamente limitada ao espaço e as pessoas que estão passando por ali naquele momento e isso é insuficiente para gerar barulho.

Toda ação precisa ser desenhada pra ser fotografada, filmada e postada. O físico é o gatilho e o digital é o canhão. É por isso que toda briga entre BK e McDonalds vira um ‘filme’ no Youtube.

Você não precisa de estrutura de cinema, apenas garantir captação vertical (Reels/TikTok/Stories), captação horizontal (LinkedIn/YouTube) e documentar reações do público (UGC).

É natural considerar redes sociais e mídia paga como canais amplificadores, mas também é importante considerar PR, KOL (key opinion leaders) e influenciadores.

#05 Calendário

Esse é o elemento que separa quem fez uma ação legal de quem constrói marca.

Uma ação é apenas um stunt. Você precisa de consistência e frequência para entregar uma mensagem e construir “disponibilidade mental” na sua audiência.

Poucos meses antes da ação com gelo, a Barte promoveu uma ação de reconhecimento conectando o LinkedIn com OOH, onde pessoas que faziam posts reconhecendo colegas apareciam em outdoors digitais espalhados por SP.

Na Swile, tínhamos orçamento e janelas dedicadas para surfar as oportunidades que surgiam.

O marqueteiro está preso dentro de uma tela

Preso em dashboards de performance, feeds e LLM workflows. Preso numa lógica onde tudo que não tem pixel é ruim. Startups acham que o único campo de batalha é digital e o único idioma é CAC.

Enquanto isso, a criatividade definha.

A Swile admitiu ser inútil em 5.570 outdoors, a Barte congelou dinheiro na Faria Lima pra falar sobre retenção de recebíveis, a Nike emboscou a Adidas em Paris. A Billie Eilish subverteu uma feature, a Swile surfou um tema espontâneo e virou protagonista da conversa sobre trabalho no país.

Nenhuma dessas ações nasceu de um dashboard.

Nasceram de uma pergunta que quase ninguém faz: "o que eu posso fazer que ninguém está fazendo?"

A resposta é: sair da tela.

Até a próxima quinta, 10h07.

Qual a nota dessa edição?

(pessoas educadas respondem)

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