Desde o início de março, estou de casa nova. Depois de 5 anos, deixei a posição de diretor de marketing na Swile e assumi como CRO (Chief Revenue Officer) global na STLFLIX, plataforma de arquivos para impressão 3D por assinatura.

Escrevi sobre essa transição aqui:

E como parte dessa mudança vem o desafio de entender uma nova empresa: sua operação, seus times e seus objetivos.

Eu passei os últimos 5 anos conversando com o RH para vender vale-refeição e migrei para o B2C, vendendo assinatura para uma biblioteca de projetos para impressão 3D.

O marketing nessas duas empresas é muito diferente. Então como entender essas diferenças e saber o que precisa ser estimulado e alterado? O framework que utilizo pra isso acelera muito minha curva de aprendizagem e me permite tomar decisões em menos de 3 semanas.

É esse framework que compartilho com você nessa edição.

🧠 Tempo para escrever: 8 horas
📖 Tempo de leitura: 12 minutos
✍️ Na última edição:  CMO Interino: teste real diminui o risco de contratações erradas

Comentário da última edição:

Nessa edição você vai ler:

Você começa a trabalhar em uma nova empresa e recebe 'carta branca’ dos founders para imprimir seu estilo de trabalho. Mas por onde você começa?

Existe o ímpeto por gerar resultados rápidos e cravar seu nome como uma boa contratação, existe toda a aprendizagem sobre o negócios e a operação, você provavelmente está em um negócio novo - GTM ou mercado diferente.

O começo é complexo, não importa a posição. Tanto é verdade que escrevemos uma edição apenas sobre isso.

Em marketing, esse início é particularmente difícil, afinal marketing é muito diferente entre empresas.

Imagine que eu passei os últimos 5 anos conversando com o RH para vender vale-refeição e migrei para o B2C, vendendo assinatura para uma biblioteca de projetos para impressão 3D.

Times de marketing, especialmente, são muito diferentes entre si.

Mesmo em empresas com um mesmo GTM - digamos SaaS B2B MLG para SMBs (essa sopa de letrinhas ficou pesada) - os times provavelmente estarão estruturados de forma diferente.

O marketing que eu encontrei é tão diferente do marketing que eu fiz que foi difícil ficar por dentro de tudo - até compartilho um pouco desse sentimento nesse post:

Na STLFLIX, nosso BHAG (Big Hairy Audacious Goal, Jim Collins e Jerry Porras) é 100 mil assinantes em 2026 e tenho analisado tudo sob essa perspectiva.

Conforme as peças vão se encaixando e começo a entender como as coisas funcionam, me pergunto se algo facilita ou acelera nossa jornada rumo ao BHAG.

Incluindo nossa estrutura de marketing.

Como analisar a estrutura de marketing

A parte complexa desse história é que marketing é muita coisa.

É o lugar onde até a mesma coisa pode ser diferente, por exemplo, social media é totalmente diferente nas três empresas onde tenho relacionamento hoje: STLFLIX, Swile e G4 Educação.

Então, para começar, eu sigo dois princípios que me ajudam a simplificar essa análise inicial:

  1. Marketing é negócio

  2. Só existem 4 tipos de marketing

#1 Marketing é negócio

Marketing pode ser muita coisa, mas um bom marketing tem sempre o mesmo objetivo: vender. Um bom marketing ajuda a vender mais, com mais margens e mais facilmente.

Esse princípio facilita o juízo de valor sobre formas de trabalho com as quais eu não estou necessariamente familiarizado.

Com três semanas de casa, é impossível eu avaliar com precisão se o nosso trabalho de social media é medíocre ou excepcional. Mas se o trabalho está, de alguma forma, conectado com o negócio (por exemplo, a definição de sucesso do trabalho) e o time é proficiente nos indicadores importantes para a companhia, esse é um bom sinal.

Se não, pode-se colocar um asterisco aqui.

#2 Só existem 4 tipos de marketing

Marketing pode ser muito coisa, e isso faz com que as habilidades necessárias para um bom marketing variem de acordo com o contexto, inclusive tornando a organização do time difícil.

Por isso gosto de categorizar all-things marketing dentro de 4 baldes: performance, conteúdo, produto e marca.

  1. Performance: o time que desenvolve campanhas com o objetivo de abastecer o funil de marketing e vendas.

  2. Conteúdo: o time responsável pelo calendário de conteúdo (todos os tipos), cujo objetivo é engajar o mercado e facilitar a jornada.

  3. Produto: também conhecido como product marketing, é o time responsável pelo go-to-market de novos produtos e funcionalidades e o protetor proposta de valor atual.

  4. Marca: o time que define e promove os atributos de marca.

Reforço que essa é uma definição ampla e pouco científica com o objetivo de facilitar a análise do trabalho de marketing em um novo contexto.

O meu time atual tem 34 pessoas, entre editores de vídeo, designers, analistas de mídias sociais, de performance, até influenciadores/youtubers e muitas outras funções. Depois de 3 semanas eu ainda não tenho conhecimento detalhado sobre o que cada pessoa faz, mas já sei como o trabalho de marketing está distribuído entre meus 4 baldes.

Esses princípios visam reduzir a complexidade do contexto (uma nova liderança, em um novo mercado, com um tipo diferente de marketing) para que você possa acelerar sua jornada de aprendizado e começar a fazer diagnósticos sobre a situação e prognósticos sobre o futuro.

Framework: Fuel-Engine Balance

Ou, como reorganizar a estrutura de marketing.

Com um pequeno esforço lógico é possível dizer que o marketing só faz duas coisas: cria e distribui.

  • Cria conteúdos (escrito, vídeo, áudio) e distribuí através do seu blog, canal no youtube e redes sociais - de forma orgânica ou paga.

  • Cria campanhas (peças estáticas, filmes completos) e escolhe alguns canais para distribuir a mensagem (redes sociais, OOH, TV…)

Emily Kramer, da MKT1, explica que o sucesso em marketing começa no equilíbrio entre essas duas coisas. É preciso ter um motor potente e personalizado para a empresa (engine → distribuição) e abastece-lo com combustível de alta qualidade (fuel → criação).

Com recursos limitados, as empresas tendem a priorizar um desses elementos, geralmente de acordo com o playbook de onde extraem sua filosofia de crescimento. E nessa situação tendem a produzir muito combustível sem desenvolver um excelente motor, ou fazem o contrário, e se vem se conteúdo de qualidade para faze-lo funcionar.

The fuel is all the stuff that you say (out loud, in writing, or visually) to your audience. The engine is all of the channels and processes you use to get the fuel out to your audience.

Emily Kramer, MKT1

Sob essa lógica, toda copy, anúncios, criativos para as redes sociais ou materiais escritos como posts no blog e ebooks são fuel. Por outro lado, exemplos de engine envolvem os canais disponíveis, como e-mail marketing, SEO e o trabalho de CRO (conversion rate optimization).

Ao conectar os 4 tipos de marketing com o conceito de fuel e engine, temos content e brand como fuel e performance como engine, enquanto product marketing desempenha um pouco de cada função.

Building an efficient marketing machine - Emily Kramer, MKT1

Quando o desenvolvimento de fuel e engine está desequilibrado, isso tende a prejudicar o crescimento da empresa (marketing é negócios, certo?), mas também dificulta o diagnóstico sobre o que pode estar errado.

Por exemplo, quando um determinado canal não funciona, é natural apontar para um problema de engine: minha audiência não congrega nesse canal. Mas é possível que você tenha um problema de fuel e precise de um tipo diferente de combustível para abastecer essa nova peça do motor (por exemplo: reels x tiktok x youtube shorts)

Esse desequilíbrio pode gerar três diferentes problemas dentro do seu marketing:

  • Problema #1 - falta de combustível: você ouve que é preciso fazer mais. Mais campanhas, mais investimento em anúncios, mais listas frias, mais leads. E pouco se discute sobre como manter essas máquinas funcionando (quantidade de criativos, testes em landing pages, materiais para e-mail e follow-ups)

  • Problema #2 - motor fraco: esse é o caso onde a produção é maximizada, mas o conteúdo é mal distribuído. Seus objetivos envolvem volume de produção (escrever x blog posts) e não se planejam campanhas para distribuir esse material - e nem como reaproveitar materiais existentes de forma diferente.

  • Problema #3 - Incompatibilidade: você tem um bom equilíbrio entre as duas partes, mas elas estão desconectadas. Você ranqueia bem para termos desnecessários (por muito tempo a Swile teve a primeira posição para Gather Town, uma solução de sede virtual que utilizamos durante a pandemia), você não vê conversões vindas de conteúdos e os times trabalham em silos.

Na prática: o caso STLFLIX

Durante três semanas eu tive dezenas de conversas com outras dezenas de pessoas - sobre a empresa, as pessoas, a visão de futuro, os desafios e a operação.

Logo notei o quão enviesado estamos para a produção de conteúdo (fuel) e o quanto isso está desequilibrado em relação ao nosso motor de crescimento (engine). A estrutura atual é mais ou menos assim:

Nesse cenário, meu prognóstico é que teremos dificuldade em alcançar os 100 mil usuários do BHAG porque nossa engine não aproveita todo o conteúdo disponível.

Estamos produzindo conteúdos excelentes e em alto volume (principalmente para redes sociais) mas não realizamos todo o potencial porque nosso plano de distribuição é limitado. Além disso, nossa aquisição é quase exclusivamente gerada por anúncios fundo de funil.

Com base nesse contexto, meu plano é construir a engine da empresa, primeiro transformando influencer marketing de criador de conteúdo para canal de aquisição/distribuição, e então adicionando (ou especializando, quando existem iniciativas soltas) novos canais, principalmente CRM, comunidade e CRO.

Note que nesse momento eu não estou falando sobre contratações e pessoas, apenas sobre competências. Contratar é uma das formas de embarcar conhecimento dentro do time, outras formas envolvem treinamento, terceirização e consultoria.

Por exemplo, para conectar melhor engine com fuel (e aproximar marketing de produto e tecnologia) devo aportar competências de Product Marketing ao time. Essa deve ser uma das últimas contratações que farei, com PMM reportando diretamente pra mim, e até lá eu mesmo irei desempenhar essa função uma vez que tenho competências desenvolvidas nessa frente.

Com isso, o time deve ficar parecido com isso:

Com uma noção de como fuel e engine funcionam nesse contexto específico - empresa, GTM, metas, prioridades, momento atual - fica muito mais fácil avançar para os termos mais práticos como CRO recém contratado.

Em termos de time:

  • Quais são as habilidades que já estão dentro de casa?

  • Quem são as pessoas interessadas em desenvolver as habilidades faltantes?

  • Quais são as primeiras contratações que devo fazer?

  • Qual é o perfil que devo contratar? Senioridade, estilo de trabalho.

  • Que ajustes organizacionais posso fazer para otimizar fuel-engine?

Em termos de iniciativas:

  • Quais projetos são mais impactantes?

  • Quais são os gaps em termos de martech?

  • Quais processos precisam ser criados ou revisados?

  • Com quais áreas nos comunicamos bem e onde estamos trabalhando em silo?

Essa linha de pensamento busca acelerar a curva de aprendizagem dentro de um novo time, partindo de princípios mais fundamentais que facilitam a compreensão e informam quais decisões devem ser tomadas.

Qual a nota dessa edição?

(pessoas educadas respondem)

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