O Google anunciou na última semana que desistiu de matar os cookies de terceiros de dentro do Chrome. Isso é uma baita mudança para marketing e publicidade.

Era uma prioridade acabar com os “third-party cookies” dentro da companhia, que queria privilegiar a privacidade dos usuários e mudar a maneira como guardam registros para uma tecnologia mais avançada.

Depois de chutarem o prazo para frente em mais de duas oportunidades (o deadline inicial era em 2021!), o Google jogou a toalha e disse que não vai matar mais cookie nenhum, e sim tentar outra maneira - e não disse direito qual. 

Para o mercado publicitário, é uma vitória no curto prazo. A mudança ia custar bem caro (mais sobre isso nas próximas linhas). 

A desistência muda muita coisa. Ou nem tanta coisa assim? 

Veremos nas próximas linhas.

A newsletter de hoje é sobre cookies, formas de mensuração e atribuição, e como você deveria pensar o seu marketing digital a partir de hoje. 

Um agradecimento especial a Izabela Anholett, Eduardo Couto e Marcel Ghiraldini, que me ajudaram a construir essa edição. 

👓️Tempo de escrita: 4 horas
✍️Tempo de leitura: 14 minutos
📰Na última edição: Eu odeio a carreira T-Shaped. Como progredir em Growth

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O que você vai ler hoje

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“C is for Cookie. That’s good enough for me!

C is for Cookie. That’s good enough for me!

C is for Cookie. That’s good enough for me!

OOOOOH!

Cookie, Cookie, Cookie, starts with C!”

Cookie Monster, Sesame Street

Um cookie é um pedacinho de informação que os sites instalam no seu navegador a partir do momento que você visita ele. 

Ele tá por aí desde a década de 90, tem mil e uma utilidades, como lembrar seu login e senha, idioma e localização… até mesmo te oferecer anúncios baseados no seu interesse. 

É uma das sustentações da publicidade online. 

Por “servir anúncios baseados no seu interesse”, entenda-se: é o cookie que possibilita que aquele e-commerce consiga te perseguir até o fim dos tempos, em todos os lugares, mostrando aquele tênis que você colocou no carrinho, mas não concluiu a compra. 

Um cookie first-party é capturado e armazenado pelo próprio site que você visita, e fica “contido” nele mesmo. Esse aí não tinha risco de morrer. 

O que estava em xeque era o cookie de terceiros, que são operados por plataformas que cruzam todas essas informações - ou seja, te expoem para esse mundão de ferramenta e anunciante. 

Diferença de cookies, de acordo com o Corvidae. Valeu, Carlos Tesore!

Exemplos de coisas que dependem de cookie de terceiros:

  • Remarketing e Retargeting;

  • Audiências do Meta/FB e o lookalike;

  • Tracking de diversas interações “fora” do seu universo;

  • Muuuuuuita coisa de publicidade. Tipo muita mesmo. 

Cookieless e a volta dos que não foram

“Hoje não, hoje não! Hoje… sim?” - Machado, Cleber. Se você não sabe o que eu estou falando, clique aqui para escutar a narração de uma das maiores vergonhas da Fórmula 1.

Esse rolo todo de colocar seus cookies para jogo era o que estava na mira dessa nova vertente que tenta proteger a privacidade dos usuários, endossada também por regulações como GDPR, LGPD e outras mais. 

Então, veio o tal do Sandbox para tentar arrancar os third-party cookies do Chrome, o projeto que foi descontinuado na última semana. 

Isso é relevante, aliás: o Google não pode matar o third-party cookies como um todo. Ele pode matá-los no Chrome. Mas isso é tão forte quanto matar para geral. 

O Chrome tem 75% de market share no Brasil (EXAME) e 67% no Mundo (StatCounter). O segundo da lista tem menos de 16% (Safari, da Apple). É “tudo” deles.

Existem navegadores que já desconsideram os cookies de terceiros, caso de Firefox, Brave, Arc e até Safari, a depender da configuração. Mas isso nem arranha o tamanho do mercado. 

O Google testou o tal do ‘cookieless’ ao longo desse tempo e conseguiram até alguns resultados interessantes, de acordo com estudos divulgados pelo próprio Privacy Sandbox:

  • ROI: custo por conversão atingindo 97% do benchmark em Display

  • Remarketing recuperando 55% do investimento em Google Ads

Isso é um grão de areia no oceano. E o mercado publicitário estava enfurecido que as coisas iam mudar. (Matéria do Meio & Mensagem mostra um pouco disso). 

Por que? Bom, o tamanho do buraco seria muito grande. 

  • Publishers poderiam perder 60% da sua receita de publicidade

  • Isso é coisa de USD 11 bilhões por ano (dado da McKinsey)

  • USD 180 bilhões de mídia programática dependem de 3rd Party Cookies

O Google não é bobo nem nada.

Se conseguisse mudar tudo, ele tem uma suíte de produtos de publicidade e parte da grana que ia para os terceiros, monitorada e guiada por cookies, ia parar no seu próprio bolso, já que venderia como first-party. 

Já diria Capitão Nascimento no final do Tropa de Elite 2: “O sistema é f*da. Ainda vai morrer muito inocente”. Uma mudança tão grande pegaria todo um mercado de calça curta, mesmo com algum tempo para uma adaptação. 

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“O cookie sustenta todo um ecossistema da publicidade digital. Um monte de empresa ia provavelmente falir sem os cookies. Por exemplo, os sites e blogs menores que vivem de entregar publicidade quando o anunciante segmenta o dado e não o inventário (mídia programática). São publishers que dificilmente conseguiriam vender diretamente para os anunciantes e as agências”

Eduardo Couto, executivo de publicidade na Uber.

Couto, membro do comitê de vídeo digital no IAB Brasil e executivo com mais de 15 anos de experiência em mídia, acrescenta que métricas de frequência e conversão também seriam seriamente impactadas - e isso é chave em campanhas online. 

Nesse meio tempo, surgiram milhares de startups e até produtos de companhias estabelecidas apostando em um “futuro cookieless” para ganharem espaço no mercado. 

Quanta gente apostando em futuro cookieless… Quem será que sobrevive para contas a história?

Na minha opinião, um monte dessas empresas vai morrer pelo caminho. É como quem apostou em metaverso… e não era o Facebook para ter caixa e marca o suficiente para migrar quando viu que a coisa tinha azedado. 

Mas como o “modelo novo” de tracking não vingou, isso afetaria diretamente os economics do próprio Google, que já tem 77,4% de sua receita vindo de publicidade (coisa de USD 230 BILHÕES) e está sofrendo uma pressão grande em vários outros mercados (oi, SearchGPT!). 

Aí…. miou. 

O que muda hoje

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“Depender do Google sempre foi como dançar com um urso. Se um urso te encontra na floresta e diz que quer dançar, você dança. A outra opção é ele te matar.”

Marcel Ghiraldini, CEO da Math Group

No presente mesmo, nada mudou. O que mudou foi um cenário futuro onde sabíamos o caminho para tirarmos os cookies de terceiros, e agora não sabemos mais. 

O Marcel lidera o grupo de consultorias especializadas em dados, performance, CRM e martech que tem clientes como Santander, Itaú, Ford e XP Investimentos. 

“O principal ponto na minha opinião, é a insegurança de qualquer planejamento de médio e longo prazo. Não é a primeira e nem a última vez que ele muda as regras do jogo. É só olhar quem estava otimizando para SEO e agora existe o zero-click search. Nunca foi tão importante não depender só dele”, comenta Ghiraldini. 

Nota: a gente está falando do Google, mas vale para todos os players. Se você tá 100% “comprado” em Meta e eles mudam o algoritmo, você se lascou. Vale também para LinkedIn, TikTok, ou qualquer outro canal de terceiros. 

Você deveria diversificar canais, e também ter uma base própria para tomada de ação. Ter dados de perfil e comportamento guardados em sua própria base te permite acionar essas audiências em plataformas de terceiros.

A Apple já bloqueia cookies de terceiros desde o iOS 14, em 2021. Foi uma sangria desatada quando isso aconteceu, com quedas vertiginosas até no preço das ações de companhias que dependiam disso, como Meta e Google. 

Experimenta baixar um app e recusar que ele compartilhe as informações com outros.

Tive a mesma experiência com o QuintoAndar duas vezes: a primeira liberando o tal do App Tracking Transparency (ou seja, compartilhando os dados), e a segunda não. 

Na primeira vez, anúncios de apartamentos parecidos com o que eu tinha buscado me perseguiam. Instagram, feed e stories. Site de esporte. Site de Notícia. GMail. Em todo lugar. 

Na segunda vez que entrei só por curiosidade e bloqueei o tracking… Nada de anúncio deles em lugar nenhum (o que é bom porque eu não estou buscando um apê, só estava curioso para saber umas informações). 

“O usuário precisa entender também para que servem os cookies e qual a importância de compartilhar essa informação em uma experiência de navegação. Mas ninguém ainda se dedicou a explicar direito”, diz Eduardo Couto. 

O que muda (e quem ganha) amanhã

Falando de futuro: privacidade ainda vai ditar os rumos de marketing. 

Vai ser mais e mais difícil você conseguir reportar e hipersegmentar no detalhe como fazíamos nos “tempos áureos”. 

Existe uma contramão de ferramentas de analytics que está surgindo como “resistência” para trackear no detalhe, caso do HockeyStack (que mostra toda a jornada de compra B2B) ou até da POLÊMICA R!B2B, que consegue te falar até quem é a pessoa dentro de tal acessando o seu site (isso é muita maluquice e papo pra outra edição). 

Mas com uma legislação cada vez mais restrita e tecnologia seguindo a toada de proteger privacidade (hoje mais de ⅓ da internet usa adblocker), a tendência é que a gente tenha muito menos atribuição fidedigna e segmentação nesse nível de detalhe. 

A tendência é que voltemos ao “marketing digital do século XX”. 

Quem fala isso não sou (só) eu, mas também um monte de expert no setor - caso do Rand Fishkin, co-fundador do SparkToro e do SEOMoz, um dos “OGs” de marketing digital e um dos empreendedores que eu admiro. 

Recomendo demais que você veja esse vídeo, ou leia o texto de transcrição. 

Rand Fishkin, me nota! Eu sou seu fã! (Aqui o link para o vídeo)

Com isso, na minha análise:

Ganha quem tomar mais risco

Por risco, entenda-se apostar em canais e ações mesmo sem ter no detalhe toda a atribuição de retorno. Salto de fé mesmo, com um chute mais bem-educado de interferência na jornada de compra, e não necessariamente atribuição. 

Quem vem de background analítico (como por exemplo o CFO da sua empresa) fica muito mais confortável em ver que o canal X respondeu por 32,3% da jornada, mesmo que cá entre nós a gente saiba que não é bem assim. Mas isso já era. 

O “lado negro” do tal do marketing matemático é se tornar muleta de medroso. 

“Ah, mas eu não sei no detalhe se vai funcionar porque não dá para medir” é uma racionalização do cagaço, com o perdão do meu francês. 

Você pode deduzir e inferir a partir de dados secundários (tipo grupo de controle), benchmarks ou a boa e velha intuição e experiência. Tenha uma “banda” de verba e operação destinada para testar coisas novas.

O viés científico de criar hipótese, trabalhar em cima e analisar continua, mas com um modelo menos preditivo e de atribuição. Vamos no modo hard de novo, então vence quem toma risco e joga no ataque.

Ganham os mais criativos

Com uma segmentação menos precisa, vence quem se destacar criativamente para conseguir disponibilidade mental do consumidor. 

Nessa disputa, vale tanto o canal e formato… quanto a consistência e especialmente a mensagem que você deixa para “alugar um triplex” na cabeça do seu potencial cliente. 

Boas campanhas ganham mentes, corações e carteiras desde sempre.

O caos está na jornada de compra e nos meios de divulgação, cada vez mais fragmentado e incerto. Mas se você consegue bater em uma mensagem que tenha ressonância com o comprador, vai conseguir fazer ele se mexer. 

É papo para mais edições… E me conta o que você acha!

Vai um cookie?

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Qual a nota dessa edição?

(pessoas educadas respondem)