🧠 Tempo para escrever: 3 horas
📖 Tempo de leitura: 13 minutos
✍️ Na última edição: Semanas ferradas: como sobreviver e funcionar melhor
💬Comentário da última edição:

Você vai ler
No dia 27 de Fevereiro de 2025 eu escrevi um artigo contando sobre a minha saída da Swile. No dia 13 Fevereiro de 2026, eu pedi demissão da STLFLIX.
Eu terminava o texto de forma animada e otimista:
"Nesta sexta-feira, abro mão de uma cadeira importante e uma carreira internacional na Swile para priorizar o que é mais importante para mim: minha família.
E eu faço isso da forma mais privilegiada possível: assumindo a cadeira de CMO em uma empresa global, uma das maiores do segmento, liderando toda a estrutura de RevOps - marketing, vendas, CS e dados - com a missão de construir a visão de negócios, acelerar o desenvolvimento de marketing e, quem sabe, quebrar meu próprio recorde ao crescer 51x nos próximos 5 anos."
O que aconteceu comigo provavelmente vai acontecer com você, esse artigo te ajuda a antecipar possíveis problemas e a estar preparado para quando as coisas não saírem conforme o esperado.
O que aconteceu?
Crescemos mais do que o planejado, batemos todas as metas, lançamos novos produtos e melhoramos o ambiente de trabalho.
Isso geralmente basta para criar um cenário favorável para alguém se desenvolver e se consolidar em uma nova empresa. Geralmente.
No meu caso, a minha visão e forma de trabalho estavam desalinhadas com a visão dos sócios. Antes de continuar, quero deixar claro que esse tópico não é uma avaliação de quem está certo ou errado, raramente as coisas são tão absolutas assim. Mas esse alinhamento é ainda maiscrítico quando se trata da diretoria, então eu decidi sair.
Sem emprego novo, sem entrevistas, e sem nem mesmo saber o que fazer.
E, ao mesmo tempo, carregando um monte de conflitos cujas reflexões, em parte, estão detalhadas nesse artigo.
#01 Todo mundo precisa de um método para avaliar decisões de carreira
Você decidiu mudar de emprego, foi bem em um processo ou recebeu uma proposta financeiramente muito boa. Como saber que essa é a decisão certa? Como se antecipar aos riscos e problemas não falados durante suas conversas?
Eu já escrevi sobre aqui na Growth Insight, sistematizando minha experiência para você avaliar a oportunidade por 6 perspectivas diferentes.
E, como eu só escrevo sobre o que faço, eu utilizei esse mesmo framework para tomar uma decisão.
Com base no que vivi durante um ano, revisitei esse processo e avaliei a qualidade do exercício que eu fiz. Como você pode notar, eu não fui muito diligente e admito que não foi o melhor exercício.

Eu acredito que fracassei em me aprofundar no GTM da empresa e nas expectativas sobre o meu trabalho. Puxando diretamente do meu framework, eu construi uma visão parcial de perguntas importantes como:
Como a empresa cresce?
Qual é a visão de marketing (ou qualquer outro departamento) dos founders?
A mensagem é de mudança? Se sim, quais são os sinais de quem o time fundador realmente tem coragem para mudar?
Quão bem fundamentados são os desafios e problemas compartilhados? Quão detalhada é a visão do time fundador sobre a solução?
É esperado que você encontre todas as respostas ou você contará com apoio das pessoas da organização?
O job description da posição é amplo e genérico?
Em relação ao fit entre eu e a posição, estava claro que o meu set de habilidades seria desafiado, ponto que eu exaustivamente discuti com os fundadores, principalmente por eu ter experiência consolidada no B2B e a empresa ser B2C, mas decidi assumir o risco.
O que nos leva ao próximo ponto.
#02 A relação risco x retorno das decisões
Mudar de empresa é um movimento arriscado. Você vai se deparar com novas pessoas, cultura, forma de trabalho, modelo de negócio, prioridades e forma de pensar.
Já ficar no mesmo lugar carrega um tipo diferente de risco, mais estável do que mudar.
Por isso recomendo analisar as decisões sob a lógica do risco e retorno, de forma a evitar caminhos que não oferecem retornos proporcionais ou que possuem um nível de risco (mesmo que em baixa probabilidade) que você não consegue bancar.
Entenda que seu trabalho deve servir ao seus propósitos de vida (isso não é motivação, é utilitarismo). Por exemplo, a minha mudança de emprego estava diretamente relacionada à forma como quero criar a minha filha e o que deveria ser feito para viabilizar isso.
Nossas carreiras devem ser analisadas com essa ideia em mente: essa oportunidade interage de forma harmônica com os demais elementos da minha vida?
O problema é que tendemos a subestimar os riscos ou até mesmo ignorá-los. Mas , termos pouca consciência sobre o risco não muda o fato de estarmos nos expondo à ele, e é justamente por isso ficamos surpresos e frustrados quando o risco é realizado.
O que me fez pensar sobre uma armadilha frequente.
#03 A armadilha do otimismo sobre o futuro e o passado
Eu duvido que exista alguém que peça demissão antes mesmo de completar 1 ano de empresa e se sinta feliz e radiante com sua situação.
Eu não decidi sair no dia 13/02. Eu informei a minha saída logo após o recesso do final de ano, mas eu também não decidi sair no dia 01/01. A decisão não é um ponto absoluto no tempo, mas um processo construído ao longo do tempo.
Faz meses que eu tenho falado de trabalho em minhas sessões de terapia (e ainda falo) e isso faz parte do processo de reflexão que leva ao aprendizado e decisões.
O que torna esses momentos mais difíceis é o nosso otimismo, mesmo que você se considere realista ou mesmo pessimista.
Primeiro, porque tendemos a pintar um quadro otimista sobre o nosso futuro. Ao pensarmos sobre nossa vida daqui um ano, sempre nos imaginamos em um lugar melhor, jamais consideramos que estaremos doentes, sofreremos um acidente ou que pediremos demissão.
Tomamos nossas decisões esperando que o resultado seja melhor do que a alternativa descartada, mas com a expectativa sendo a mãe da frustração, é natural que fiquemos abalados quando nossos planos desmoronam.
Por si só, isso já constitui uma armadilha que exige autoconhecimento e reflexão, mas o otimismo tem um lado ainda pior: o otimismo sobre o passado.
Assim que eu percebi que deveria sair da empresa, um novo pensamento apareceu: eu deveria ter ficado na Swile.
Ao se frustrar com os resultados de uma decisão, é natural imaginar que o caminho não escolhido me levaria a um lugar melhor. Nós nunca consideramos que o caminho A foi ruim, mas o caminho B poderia ser ainda pior.
Eu aprendi isso quando sofri um acidente sério na estrada.
Presenciei o tombamento de uma carreta do exército na minha frente e evitei qualquer colisão, apenas para que outro caminhão do exército acertasse a traseira do meu carro, exatamente onde a Sophia estava (era aniversário de 2 anos dela).


Enquanto esperávamos, o primeiro pensamento que me ocorreu foi o de que se tivéssemos saído de casa 5-10 minutos mais cedo nada daquilo teria acontecido eu estaria quase chegando ao meu destino.
Mas essa visão otimista da alternativa não tem qualquer fundamento. Existe uma chance igual de, ao sair alguns minutos mais cedo, eu estar debaixo daquela carreta.
Nossas decisões não são escolhas binárias entre sofrer um acidente ou chegar em segurança. Existe num leque infinito de possibilidades onde muitas delas tem consequências piores do que o que está sendo vivenciado.
Não há controle sobre o que não foi feito, você não pode ser sugado pela ideia da vida que não viveu. O que me leva ao próximo ponto…
#04 Relembre a razão pela qual você tomou a decisão
Não importa o resultado, você tomou o que julgou ser a melhor decisão com base nas informações que tinha.
Você ponderou as opções, avaliou as vantagens e os riscos e agiu.
Agora você descobriu que as coisas não eram bem o que você imaginou e, de posse dessa informação, você reavalia a decisão que tomou no passado. Esse é um exercício injusto com você.
Quando eu decidi sair da Swile para trabalhar na STLFLIX, eu tinha uma contra-proposta na mesa:
⬆️ Aumento salarial
⬆️ Escopo internacional, trabalhando para o Brasil e França
⬆️ Mudança para Joinville/SC aprovada
⬆️ Alta reputação e confiança
⬇ 1,5 semana por mês em SP e 4 semanas por ano em Paris (~22 semanas por ano)
⬇ Único diretor trabalhando remotamente
Com mais vantagens do que desvantagens, porque eu decidi sair?
Eu estava me mudando para que a Sophia fosse criada mais próxima da família e considerei que viajar 22 semanas por ano (isso representa 40% de um ano) era incompatível com o meu objetivo principal, pois eu ficaria longe dela por muito tempo.
Além disso, também considerei quem ser o único diretor e o único integrante do time de marketing trabalhando remoto tornaria do trabalho muito difícil, principalmente em uma empresa com uma forte política de retorno ao escritório. Então eu decidi sair.
Esse exercício é importante porque você se sente um fracassado. Eu sei disso porque me senti um fracasso. Não por um dia ou uma semana, mas durante meses.
Esse exercício coloca sua situação em um espectro, te permite se sentir frustrado e realizado ao mesmo tempo e te lembra de que você não precisa colocar tudo em uma única balança e responder se valeu a pena.
Eu nunca estive tão insatisfeito com minha vida profissional. E eu nunca me senti tão feliz pela criação que eu to proporcionando para a minha filha. Essas coisas devem ser medidas por diferentes escalas.
#05 Você tem apenas três opções, seja pragmático
Eu acredito que o que aconteceu comigo é 100% minha responsabilidade.
Mas, para isso fazer sentido, primeiro é importante separarmos responsabilidade de culpa.
Nesse contexto, a culpa é ligada ao passado e à origem do problema. A responsabilidade é associada ao presente e à ação/solução.
Seu amigo quebra um copo na sua casa e você logo pega uma vassoura para juntar os cacos. O seu amigo é culpado pelo copo quebrado, mas é sua responsabilidade manter sua casa limpa.
Boa parte do que aconteceu deve ser atribuída à mim, da mesma forma que os founders são culpados por isso também.
Quando digo que a responsabilidade é totalmente minha, estou falando com pragmatismo. Diante de uma situação como essa, existem 3 caminhos: você aceita, você luta para mudar, você sai.
Era eu quem estava desalinhado. Por maior que seja a confiança que eu tinha em minhas crenças e opiniões, é injusto dizer que os donos da empresa estão errados sobre como eles querem construir a própria empresa.
Então cabe à mim aceitar, mudar ou sair.
Eu entendi que não conseguiria aceitar a situação e que mudar a visão dos fundadores não era minha responsabilidade, então só me restava uma opção.
Muitas pessoas forçam um quarto caminho: reclamar. Que nada mais é do que uma variação covarde do aceitar. Como você não tem coragem para lutar pela mudança e nem para sair, você aceita a situação e adota a reclamação como ferramenta para tornar a vida mais palatável.
E aqui é importante deixar claro que eu reconheço as nuances de cada situação e pessoa, o quanto certas condições tornam a vida mais difícil. Entenda aceitar/mudar/sair como um caminho a seguir e ser construído (assim como eu fiz), não uma decisão imediata.
E agora?
Eu ainda não decidi qual será meu próximo passo.
Algumas empresas me ofereceram um emprego, outras me chamaram para prestar consultoria.
Por enquanto eu to mais focado em curtir a Sophia, minha piscina, meu tempo livre. É interessante ver o que acontece quando você não está trabalhando 10h por dia.


