Nos últimos anos, o mercado vem discutindo intensamente a suposta dicotomia entre marketing de performance e branding. Para muitos executivos, tratar esses dois pilares de forma separada é quase uma regra. Afinal, performance é vista como a busca imediata por vendas e conversões, enquanto branding recairia em campanhas institucionais, muitas vezes julgadas “sem ROI”.

No entanto, um estudo exclusivo conduzido pelo SoftBank, e apresentado de forma limitada a um grupo de executivos das startups investidas, reforçou que essa visão de “um ou outro” está ultrapassada.

Este artigo revisa e aprofunda os pontos mais relevantes do estudo original, agregando ao estudo o que foi discutido entre diretores de marketing e fundadores de empresas após a apresentação. Você verá:

  1. Como o estudo SoftBank & Suno foi construído e por que ele é inédito.

  2. Os pontos mais “quentes” da discussão entre executivos de marketing, incluindo erros e acertos na prática.

  3. Exemplos concretos de empresas que equilibraram (ou desequilibraram) performance e awareness.

  4. Recomendações para integrar esses dois pilares de forma estratégica, contemplando questões de métricas, estrutura de equipes, contexto de mídia e cultura de marca.

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Nessa edição você vai ler:

O estudo exclusivo e seu propósito

O SoftBank, conhecido mundialmente por seus investimentos em tecnologia e AI, decidiu aprofundar-se na questão: Como as startups e scale-ups estão estruturando suas estratégias de marketing? Especialmente quando se fala em relacionar investimentos de “performance” (visando resultados imediatos) e “branding” (com foco em construção de marca e percepção de longo prazo).

Em conjunto com a Suno, foi organizada uma ampla pesquisa, dividida em várias etapas:

  • Coleta de 325 estímulos de comunicação, tanto de awareness quanto de performance.

  • Teste com 322 participantes, que foram expostos a campanhas diversas e, em seguida, avaliavam atributos de marca antes e depois de cada estímulo.

  • Estudos qualitativos (grupos de discussão), para mapear as percepções sobre canais de mídia e entender como as pessoas classificam propagandas (surpresa: elas não separam “awareness” de “performance”).

  • Entrevistas com neuropsicóloga, para explicar por que certos anúncios mais curtos podem ser mais memoráveis (atenção focada vs. atenção alternada) e como nossa memória tem sido moldada para estímulos instantâneos.

O ponto central: muitas vezes, o público não identifica onde começa a “branding” e onde termina a “performance”. Para eles, é tudo publicidade e, sim, esse tipo de anúncio também constrói (ou destrói) percepções de marca.

Insight Central: Performance e Branding não são pólos opostos

Um dos pontos mais marcantes da pesquisa foi o “shift de percepção” que campanhas focadas em venda imediata podem gerar na construção de atributos de marca como “inovação”, “credibilidade” e “afinidade”. Tradicionalmente, dizia-se:

  • “Performance só fala de preço e oferta.”

  • “Branding é o que gera identificação emocional.”

Contudo, a análise dos 29 anunciantes (incluindo grandes nomes do varejo, serviços e indústria) mostrou que as fronteiras são muito mais fluidas. Algumas campanhas rotuladas como “puramente de performance” elevaram atributos de sofisticação e carisma de maneira tão consistente quanto anúncios de awareness.

“As comunicações de performance eram mais lembradas, pois nosso cérebro foi treinado para memórias curtas e objetivas. A diferença é que, se elas não refletem a identidade de marca, a lembrança pode ser negativa ou efêmera.”

– Neuropsicóloga consultada na pesquisa

O que faz a diferença, portanto, não é o “tipo” de campanha, e sim quatro fatores-chave:

  1. Identidade de marca (com elementos visuais e narrativos reconhecíveis).

  2. Qualidade de execução (a peça não pode parecer “feita às pressas”).

  3. Clareza na mensagem (o público precisa entender facilmente a oferta ou proposta).

  4. Chamado à ação (call to action) coerente e convincente.

Como integrar de forma prática?

Se existe um consenso que emergiu tanto do estudo quanto da conversa com executivos, é que performance e awareness precisam andar juntas. Mas como, na prática, fazer isso sem cair no lugar-comum?

1. Proximidade e Métricas Combinadas

  • Proximidade: Mapeie como está a comunicação entre seu time de performance e o de branding. Eles compartilham dados? Aprovam juntos as campanhas?

  • Métricas combinadas: Vá além do CAC/CPA e inclua indicadores como brand lift, share of mind e até saliência de marca (search orgânico com o nome da empresa, por exemplo).

2. Use a “performance” para construir credibilidade

Não há motivo para anúncios de conversão serem feios ou “urgentes” demais. Dedique o mesmo cuidado de conceito e design que você daria a um grande filme publicitário. Assim, as campanhas de performance também atuam como porta de entrada para quem nunca ouviu falar da sua marca.

3. Contexto Importa

  • Canais Interativos (email marketing, patrocinadores de eventos, YouTube, entre outros) costumam gerar mais envolvimento, pois as pessoas podem controlar o que veem e interagir conforme desejam.

  • Mídia Programática: Tenha cuidado para não exibir seu anúncio em contextos negativos (páginas policiais, por exemplo). Uma simples falta de monitoramento pode destruir a credibilidade duramente conquistada.

4. Cultura e Coerência

A reunião deixou claro que a comunicação de uma empresa reflete sua cultura interna. Se a marca é naturalmente “séria”, partir para memes sem pré-teste pode soar desconexo. Por outro lado, se a empresa tem um DNA informal, não faz sentido adotar um tom burocrático em anúncios de performance.

O ideal é alinhar DNA cultural e as mensagens de marketing, independentemente de ser “brand” ou “growth”.

Tópicos quentes da conversa entre diretorias de marketing

Durante a discussão com lideranças sênior de marketing, alguns assuntos chamaram atenção pela profundidade e aplicabilidade imediata:

Equipes de marketing: entre silo e squad

Várias startups presentes relataram estruturas organizacionais fragmentadas: um “head” cuida de branding, outro cuida de “growth/performance”, e cada um tem seu orçamento e metas separadas. Para algumas, isso gerou conflitos recorrentes, especialmente quando times de performance faziam mudanças radicais em layout ou copy que nada tinham a ver com a identidade de marca.

“Chegamos a ver exemplos de campanhas de performance de grandes marcas que usavam cores e tipografias sem nenhuma consistência com o restante do branding. É chocante.”

Eduardo Vieira, CMO do Softbank

Para contornar, algumas scale-ups disseram ter adotado squads multidisciplinares (com especialistas de ads, branding, conteúdo e vendas), todos com metas compartilhadas de leads e brandlift. O alinhamento de metas se mostrou eficaz para evitar a “guerra” entre times e garantir que performance não descaracterize a marca.

O desafio do CAC em aumento constante

Para diversos executivos presentes na reunião, o CAC vem se tornando uma das dores mais urgentes na operação de marketing. O ponto central já é conhecido: à medida que se injeta mais verba em canais de performance (como links patrocinados, social ads ou campanhas de afiliados), ocorre um efeito de leilão: a concorrência também investe pesado nos mesmos espaços, encarecendo cada lead.

Além disso, quando a marca não possui atributos claros e diferenciados, limitando-se a mensagens de “somos mais baratos” ou “temos mais desconto”, a tendência é competir exclusivamente por preço, o que comprime margens e empurra o CAC para patamares cada vez menos sustentáveis.

Nesse contexto, a visão do SoftBank foi enfática: analisar o Lifetime Value (LTV) é crucial, pois clientes que realmente apreciam a marca tendem a gerar mais lucro ao longo do tempo (seja por fidelidade, cross-sell ou upgrade de planos). Porém, para elevar o LTV de forma consistente, não basta empurrar ofertas promocionais; é preciso construir e comunicar diferenciais que vão além do preço, como qualidade de atendimento, experiência superior ou soluções inovadoras.

Quando a marca investe em consistência de branding e cultiva atributos valorizados pelo público, fica menos dependente de gastos crescentes em performance para manter a roda girando. Nessa hora, o CAC se torna justificado pelo retorno ao longo de todo o ciclo de vida do cliente, ao invés de ser apenas um valor “queimado” para gerar conversões imediatas.

Exaustão de campanhas e intencionalidade de compra

Vários participantes trouxeram a questão da exaustão criativa: até que ponto a mesma campanha de performance pode rodar sem cansar a audiência? Houve quem usasse sistemas de analytics baseados em IA para identificar o exato momento em que o CTR despenca e a mensagem se “esgota”.

Além disso, no B2B, levantou-se que a “intencionalidade de compra” não é apenas empresarial, mas também pessoal: o comprador quer se destacar internamente, ganhar promoção, evitar riscos. Nesse sentido, atributos de marca (confiabilidade, segurança, inovação) contam muito.

“Não é só vender para a empresa, é vender para a pessoa que vai colocar o nome dela em jogo na decisão de compra.”

(CMO de um SaaS)

Exemplos Reais: Coca-Cola, Itaú e Swile

  • Coca-Cola: Foi citado o caso de a marca reduzir drasticamente investimentos em propaganda tradicional (TV) para tentar estratégias focadas em canais de conversão direta. Resultado: queda de vendas e um retorno às mídias de awareness pouco depois.

  • Itaú: Mudou a gestão de marketing e passou a destacar serviços específicos (Private, Wealth Management) em vez de apenas anunciar a marca corporativa. Está aprendendo a equilibrar esse novo olhar de produto e continuar alimentando a solidez de marca.

  • Swile: Patrocinou 63 eventos de RH em um ano e descobriu que esse se tornou seu “segundo maior canal de aquisição”, validando a tese de que contexto e imersão podem ser excelentes para atrair leads qualificados e reforçar atributos de marca simultaneamente.

Reflexões e Conclusão

Depois de horas de debate, os dados e gráficos reforçaram algo intuitivo, mas difícil de provar: performance e branding não são caminhos concorrentes; eles se complementam e devem se fortalecer mutuamente.

Quando isolados, surge o caos: times de performance descuidando da identidade e aumentando seu CAC; ou campanhas de awareness que não geram leads e enfraquecem o caixa.

O equilíbrio é o único caminho sustentável, e esse caminho pode ser construído a partir desses elementos:

  1. Evite estruturas internas em silos que dificultem a troca de insights entre branding e performance.

  2. Considere a saúde de longo prazo (LTV, percepção de marca) quando avaliar campanhas.

  3. Entenda que a execução de marketing revela a cultura interna: se a empresa está desalinhada internamente, a comunicação também sairá inconsistente.

  4. Compartilhe metas e rituais entre quem cuida de awareness e performance, preferencialmente com squads multidisciplinares.

  5. Lembre-se de que é tudo publicidade aos olhos do público, cada anúncio de performance também deve ter o “DNA” da marca.

  6. Invista tempo em pesquisa: a audiência muda, o mercado evolui; qualquer visão antiga pode atrapalhar suas campanhas.

No fim, “desligar” performance ou ignorar branding são tentativas arriscadas de buscar atalhos. As startups que crescem melhor e as empresas consolidadas que mantêm liderança são aquelas que integram a construção de marca e a captação de demanda, entendendo que cada ponto de contato com o consumidor pode fortalecer ou fragilizar a reputação do negócio.

Como comentei durante a reunião “é quando você está entediado de repetir a mesma mensagem que o mercado começa a entender o que você faz.” Nesse momento, não há nada mais poderoso do que ter tanto a consistência de marca quanto a execução de performance jogando do mesmo lado.

Qual a nota dessa edição?

(pessoas educadas respondem)

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