Tivemos na última semana a mentoria do Growth Insight Premium, nosso grupo de assinantes apoiadores. Uma vez por bimestre, a gente se reúne para falar sobre os tópicos que mais estão fritando a mente.

É uma das entregas do nosso clubinho, e uma das que eu mais gosto. A mentoria é uma chamada no Google Meet com a turma. Sem slide, sem palestra, sem plateia, sem upsell.

A pauta nasce no WhatsApp nos dias anteriores (chegaram sete temas nesta rodada). A ordem é votada ao vivo. Aí começamos e todo mundo pode falar. Depois disso a conversa corre solta. O que ficou de fora volta pelo grupo depois.

Foram 89 minutos e quatro temas eleitos: IA para growth, High Impact IC, montagem de squads (com remuneração e bônus), e zero-click marketing.

(Esquecemos de tirar foto da chamada. Da próxima vez tem prova.)

🧠 Tempo para escrever: 2 horas (com apoio de IA dessa vez)
📖 Tempo de leitura: 10 minutos
✍️ Na última ediçãoO dilema que virou trilema (marketing e IA)

Você vai ler

IA: a régua do que está bom

📚 A base da discussão:

Começamos com uma provocação do Felipe Witt: para ele, quase todo anúncio de IA corporativa é mais espuma do que fato. Empresas divulgam dezenas de milhares de agentes rodando. Você olha de perto e a fração que faz alguma coisa útil é pequena, inclusive nos times mais adiantados.

O Gartner mediu isso em maio, com 350 executivos de empresas acima de US$ 1 bilhão de receita. Cerca de 80% das organizações que estão pilotando ou já rodando capacidades autônomas relatam redução de time.

E a taxa de corte é praticamente igual entre quem diz ter ROI alto e quem diz ter ganho modesto ou negativo (Gartner, 2026). Cortar gente não separa quem está ganhando de quem não está.

O Collins comprou o diagnóstico e recusou a conclusão. Nada glamouroso.

Na Company Hero, toda reunião é transcrita, cai numa base do Notion, vira resumo no Slack e volta como histórico na reunião seguinte, amarrada à unidade de negócio, ao projeto e às tarefas. O ganho vem da correlação entre bases que nunca conversaram.

O caso mais tangível foi o design system carregado dentro do Claude. Um pacote de 41 materiais de sales enablement que levaria de duas a três semanas para produzir e aprovar ficou pronto em dois dias. A ressalva veio junto: sem regra visual apertada, sai material com cara de material feito por máquina. Aí não serve.

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Nos dois casos, alguém sabia o que era um resultado bom antes de pedir.

A lista do Witt, em ordem inversa de popularidade:

  1. Reconhecer o caso de uso. Perceber que aquela tarefa pode ser automatizada ou que aquele atrito pode sumir. Maior barreira do marqueteiro, e anterior a qualquer ferramenta.

  2. Acompanhar a tecnologia. Saber o que chega e o que merece atenção. É a que todo mundo tenta, a que mais dá FOMO, e a menos determinante das quatro.

  3. Prompt. A qualidade da saída depende da qualidade da entrada. Prompt bom é pedido faseado, com critério claro, e uma skill dedicada quando o caso se repete. Três páginas de instrução costumam piorar.

  4. Discernimento de saída. Olhar para o que voltou e saber que está ruim, mesmo sem conseguir explicar por quê. Parte do mercado chama de taste.

O problema é quando a gente não aplica nenhum raciocínio crítico em cima do que aconteceu. E aí a gente é convencido por uma IA de que aquilo é uma boa ideia.

Felipe Witt

Se a habilidade decisiva é a quarta, quase todo programa de capacitação em IA mira na segunda: ensina ferramenta e mede adoção por licença ativa. Ninguém ensina critério, porque critério não cabe em treinamento de duas horas.

O Collins vê o avesso disso: gente que gasta mais tempo instruindo o modelo do que gastaria fazendo a tarefa. Jogando granulado em cima de um bolo que já saiu errado. Em algum momento você aceita que o bolo está errado.

Ele é basicamente um middleware entre você e uma base de dados pública ou privada, para trazer e traduzir informação.

Felipe Collins

Se uma das duas pontas estiver mal cuidada (CRM com propriedade vazia, UTM que não carrega), nenhum modelo salva o resultado. É a explicação mais simples para um sintoma que muita gente boa sente sem diagnosticar: prompt excelente sobre base ruim devolve resposta ruim com cara de resposta boa.

O bloqueio real não é técnico

O primeiro travão é governança. Jurídico sem posição, TI que não libera licença, gente usando conta pessoal para dar conta do trabalho. O Collins, que senta nessas reuniões de diretoria, avisa: a briga não se ganha do lado de marketing. Envolve TI, compliance e decidir que nível de acesso puxa que camada de dado.

Quando alguém no chat mencionou estar preso ao Copilot corporativo, o Rodrigo resumiu a situação de metade do mercado em quatro palavras: preferia dizer refém, não defensor.

O segundo travão é de incentivo. O retorno da IA está invisível porque está privado: quem automatiza parte do próprio trabalho não tem motivo nenhum para contar.

As empresas se consideram donas da sua agenda das 9 às 18. Se você automatizar 50% do seu trabalho, ela não vai te liberar meio-dia. Ela vai te mandar trabalho novo.

Felipe Witt

O Collins discordou. Na Hero existe um canal público no Slack onde qualquer pessoa posta o que fez com IA, como fez, para que serve e qual foi o resultado estimado, em tempo economizado ou em processo manual eliminado. Em cima disso roda uma premiação trimestral para o melhor projeto, com valor em benefício flexível. O valor não é alto. Funciona porque troca risco por ganho reputacional: em vez de esconder para não ganhar mais trabalho, você mostra para ser visto.

Os dois estão certos ao mesmo tempo. O comportamento padrão é esconder, e quem quiser o contrário precisa desenhar o incentivo de propósito.

A Ana, que lidera marketing numa empresa de software para aviação, trouxe o terceiro travão. Esse é de linguagem.

O conhecimento do lado dos nossos desenvolvedores fica tão técnico que marketing não está nem entendendo o que os caras estão falando.

Ana, participante

Na empresa dela convivem dois universos: o marketing usando IA para texto e para buscar número, e o desenvolvimento discutindo qual modelo roda o agente interno. Um único projeto atravessou a fronteira, um agente ligado ao Slack, ao Amplitude e à ferramenta de roadmap, que responde ao marketing se uma funcionalidade está em beta sem depender de produto. A pergunta dela foi como fazer o marketing sair do chat e do mínimo.

Ninguém deveria começar tentando construir agente autônomo. Existem duas camadas antes.

  • Skill é um conjunto de regras e conhecimento que restringe como a IA trabalha num tipo de tarefa, para que a mesma coisa saia melhor.

  • Workflow é uma sequência de passos automatizada: alguém pergunta sobre um item do roadmap, o sistema abre a ferramenta, checa o status, escreve a mensagem, devolve.

  • Agente é o workflow autônomo, o que pode mudar de caminho no meio.

Comece pelo incômodo mais chato e mais repetido da sua semana. É esse o tamanho certo do primeiro projeto.

Se a régua do que está bom passou a depender de julgamento humano, sobra saber quem, dentro da estrutura, era pago para julgar.

High Impact IC: a régua de quem sobe

📚 A base da discussão:

High impact individual contributor é nome comprido para coisa simples: quem ganha bem e tem influência alta sem gerir ninguém. Não é ideia nova. Em tecnologia e vendas já virou rotina. O caso mais conhecido é o do Dharmesh Shah, cofundador e CTO da HubSpot, que nunca teve um report direto em quase duas décadas e segue escrevendo código.

Em marketing, quase nunca existiu. A carreira era uma escada só. Você sobe, alguém abaixo assume o operacional, você fica com o tático e o estratégico.

O que destravou foi o operacional virar terceirizável para máquina. E o mercado já colocou preço. A ClickUp abriu uma vaga de CMO para uma pessoa, sem time abaixo, reporte direto ao CEO, na faixa de US$ 500 mil a US$ 1 milhão (The State of Brand, fonte única, tratamos como indicativo). O contexto dessa vaga aparece em fonte independente: a companhia cortou 22% do time e opera cerca de 3.000 agentes internos (TechCrunch).

Os primeiros trabalhos em marketing que deixam de existir é a cadeira do middle management.

Felipe Witt

Aquela camada existia para levar informação de um lado para o outro. Quando a informação circula sozinha e o diretor gerencia o time direto, ela perde razão de ser.

O impacto muda por momento de carreira. Quem ainda não é diretor terá mais dificuldade para chegar lá, porque some o degrau de passagem. Quem está no meio corre risco real de ver a cadeira desaparecer. Quem está começando vai encontrar uma diretoria ocupada por muito menos gente, toda muito sênior.

O Collins chegou no mesmo lugar por outro caminho. Quem é espremido é o middle manager que só carrega overhead, e quem está na base fazendo o operacional que ele mesmo fazia como estagiário. Entre contratar um júnior e automatizar aquilo, hoje a conta fecha do lado da automação.

Tem uma conta que ninguém fez na chamada. Se as duas pontas somem juntas, some com elas o mecanismo que produzia gente sênior. Ninguém vira sênior sem passar por trabalho ambíguo com supervisão. A empresa que automatiza o júnior hoje resolve um custo agora e compra um problema para daqui a cinco anos, quando precisar de gente sênior num mercado que não formou ninguém. O nome disso é salário antecipado.

Gen Marketer: o conceito que o Witt prefere

Para ele, "High Impact IC" descreve bem uma cena específica: a liderança sênior descendo de volta para a execução. Mas existe conceito mais acionável para quem não está no topo, o Gen Marketer, cunhado pela Emily Kramer, da MKT1, em setembro de 2025.

Toda evolução anterior do marketing criou especialistas. A internet criou. O digital criou. As redes criaram o social media manager, growth hacking criou o growth hacker. A onda atual inverte o movimento, porque a IA torna acessível a execução que antes exigia especialização. O Gen Marketer é o analista capaz de tirar uma campanha do papel sem precisar de cinco ou seis pessoas para desenvolver o conceito, montar os e-mails, montar os anúncios e fazer o design.

Mesma ideia do High IC, um degrau abaixo, e mais imediata para a maioria de quem lê isso.

E não precisa ser binário. Dá para manter parte do dia na direção e parte na mão na massa, prototipando de um jeito tosco para mostrar um desenho pronto em vez de escrever briefing para outra pessoa executar.

No feedback do fim da chamada, o Rodrigo respondeu do lugar onde isso dói.

Estou justamente nesse caminho do middle manager. Não sei se eu corro ou se eu olho.

Rodrigo, participante

A resposta que ele ouviu ao vivo foi que ainda dá tempo, porque isso ainda é tendência. Ou, na versão que o Collins tirou do William Gibson: o futuro já chegou, só não está distribuído por igual.

Mudou a régua de quem sobe. Muda junto a régua de quem entra.

Squads e senioridade: a régua de quem vale contratar

📚 A base da discussão:

Dois pedidos da turma se encaixaram aqui. O Pablo perguntou no chat sobre remuneração variável e se a bonificação alcança o time todo ou só a gestão. O Guilherme tinha mandado a outra pelo WhatsApp: um estagiário inteligente, mas que consome energia de treinamento, vale mais do que alguém pronto de mídia?

O Witt só contrata sênior ou gênio. O racional vem de uma operação muito horizontal, onde ele tinha quinze reports diretos como diretor. Gente júnior ali sobrecarregaria a própria liderança com gerenciamento, treinamento e preparo, e a operação já era madura demais para precisar disso.

Eu não precisava de um par de braços extras. Eu precisava de uma cabeça pensante, um sparring a mais.

Felipe Witt

A régua dele é resultado. Volume de tarefa não entra na conta: uma pessoa sênior vale por três juniors em resultado, mesmo produzindo menos peças. E "gênio" ali é comportamento, não idade: a melhor contratação da carreira dele foi uma analista júnior que subiu rápido porque já tinha o equipamento de sênior e faltava só a experiência.

O Collins adicionou dois recortes. O primeiro evita comprar tempo de casa.

Quando você fala de senioridade, você fala de ambiguidade e complexidade.

Felipe Collins

Alguém sênior navega melhor onde não existe resposta certa. Existe bastante gente com "sênior" no LinkedIn e anos de empresa que não passa nesse teste. E existe gente júnior que compensa no que a Angela Duckworth chamou de grit (traduzido mal por aqui como raça ou fome): vai batendo e voltando até destravar.

O segundo recorte serve para os dois lados da mesa.

Cada ano da sua carreira tem que ter um ano. Você não deveria viver o mesmo ano repetido duas vezes.

Felipe Collins

É também o argumento que permite contratar bem sem ter a melhor política salarial do mercado. Você vende desafio novo para quem está numa empresa onde o desafio já baixou. Foi assim que a Hero fechou uma contratação crítica recentemente.

O lado feio apareceu na sequência. Quem você contrata por desafio é flight risk permanente: sem desafio novo e sem correção de remuneração, essa pessoa vai embora, porque o mercado dela está aquecido em qualquer lugar. Times enxutos de gente muito boa trocam custo de folha por custo de retenção.

Remuneração, em dois modelos

Variável tipo vendas

Bônus com multiplicadores

Como funciona

Meta batida gera comissão, no modelo de vendas

Três fatores em série: empresa bate receita e caixa (destrava), área bate KPI (multiplica a tranche), avaliação individual (ajusta)

Onde funciona

Growth com atribuição direta: e-commerce, venda digital sem toque, aquisição muito influenciada por marketing

Qualquer área, inclusive as sem atribuição direta

Onde quebra

Branding, comunicação e PMM. Time de branding pago por venda feita para de cuidar da marca

Quando a meta que destrava é inalcançável na prática

Frequência

Mensal ou trimestral

Semestral ou anual

Na Swile, o Witt rodava uma variação que vale copiar: o bônus semestral crescia com o nível. Júnior tinha um salário de bônus no ano, pleno dois, sênior três. O efeito de segunda ordem é o que importa. Promoção deixa de ser só aumento de fixo e vira aumento de remuneração total, o que torna cada movimento bem mais relevante para a pessoa sem inflar a folha recorrente.

E o mercado já testa a versão extrema disso. A mesma ClickUp da vaga de CMO criou faixas salariais que chegam a US$ 1 milhão para quem demonstra "impacto 100x" construindo ou dirigindo sistemas de IA. A remuneração deixa de premiar tamanho de time e passa a premiar alcance individual: a lógica do High IC virando linha de política salarial.

Sobre equity, o Collins foi direto ao osso.

Equity é dinheiro fictício até que se prove o contrário.

Felipe Collins

Ele já teve participação numa companhia em que, se ela fosse vendida por um bilhão de reais, o resultado daria para comprar um Corolla. O que não invalida o instrumento: mesmo uma fatia pequena e ilíquida cria senso de dono, e às vezes é esse o retorno que a empresa quer comprar. Só exige que você faça a conta antes de aceitar a proposta. Quase ninguém faz.

Tem ainda uma pergunta que raramente aparece numa negociação: qual é a probabilidade real de bater o que destrava o bônus? Tem empresa em que ele só sai na supermeta, e a supermeta é sete vezes a meta. Tem empresa em que sai todo semestre porque a operação virou relógio. Mesma frase no contrato, dois empregos diferentes.

Sobre a montagem da squad, o critério também muda: monte o time em torno do problema que ele resolve, e deixe o organograma de especialidades para depois. A vaidade antiga (eu lidero dez pessoas, eu lidero vinte) perde valor quando cada pessoa a mais é complexidade a mais.

Contratado o time, sobra a régua mais antiga de todas: provar que o trabalho deu resultado.

Zero-click: a régua do que funcionou

📚 A base da discussão:

A edição acima já dava o número de partida: 7 a cada 10 buscas terminam sem clique. A conversa foi direto para o que ela não resolveu.

Começou desarmando o pânico. O Collins não acha que SEO morreu. Acha que virou fundo de funil. E a parte técnica ficou mais específica. O prompt que alguém escreve para uma IA se parece mais com "qual o melhor tênis Nike para pisada pronada em saibro" do que com "tênis Nike 42". Quem estrutura conteúdo para responder esse tipo de pergunta longa aparece mais.

O buraco abriu num lugar mais específico do que "o orgânico caiu". Quem mais perdeu clique foi o conteúdo informativo, porque ninguém precisa mais clicar para se informar. É esse pedaço da estratégia de SEO que exige revisão.

O que sobra é chegar antes. E aí a régua vira memória.

Ou você está nas top 3 opções da pessoa, ou você não vai ser comprado de jeito nenhum.

Felipe Witt

Quando o clique some, a atribuição some junto

Enquanto o clique existia, marketing tinha atribuição. Veio dali, clicou aqui, converteu. Quando o trabalho passa a ser ocupar espaço na cabeça de quem não está comprando agora, a atribuição para de servir como régua.

Pense em creators com cupom. Medir aquilo só pelo uso do cupom subestima muito o impacto, porque boa parte do trabalho do creator é jogar um caso de uso do produto na sua cara (uso antes de correr, uso antes de treinar, uso depois disso) e aquilo fica num canto da cabeça até o dia em que você compra sem clicar em nada. Uma marca de pneu patrocinando um canal de review de carro nunca vai capturar atribuição. Quando você for trocar o pneu, o cupom já nem existe. Mas a marca está lá.

Com o que você substitui a atribuição? Brand lift é métrica indireta como qualquer outra, e boa parte do mercado ainda não sabe o que fazer com ela.

Rodar brand lift dentro do LinkedIn resolve parte disso, aproveitando que o dinheiro de mídia já vai ser gasto. A plataforma pergunta lembrança e interação com a marca para quem viu o anúncio e para um grupo que não viu, e a diferença entre os dois é o efeito. Custa uma fração de contratar pesquisa por fora, e permite vários checkpoints ao longo de uma campanha de três ou quatro meses. O Witt completava com branded search para checar efeito correlacional depois de ações de PR sem conversão direta.

O que a Consul vendia quando vendia espátula

O nome é Category Entry Point (CEP), desenvolvido por Jenni Romaniuk e Byron Sharp no Ehrenberg-Bass Institute. São as situações, momentos e motivos que levam alguém a entrar mentalmente numa categoria antes de pensar em qualquer marca: quando eu uso, onde eu uso, por que eu uso, com quem eu uso. Quanto mais desses momentos sua marca ocupa, mais vezes ela é lembrada na hora que importa.

O Witt contou o caso da Whirlpool, quando a Consul lançou uma linha de utensílios de cozinha (potes, espátulas, um pote de silicone que colapsa). A conta daquela linha isolada era ruim, às vezes negativa. A lógica era outra: manter contato frequente e positivo com a marca antes do momento de trocar a geladeira, que acontece uma vez a cada dez anos, ou o fogão, uma vez a cada oito. Você convive com a geladeira todo dia, e a marca dela é invisível no seu cotidiano. Uma espátula que dura resolve isso.

A linha foi descontinuada alguns anos depois, e a tese do Witt é que a liderança trocou, a lógica original se perdeu, alguém olhou o P&L da linha, viu que dava trabalho e não dava dinheiro, e cortou.

Investimento de disponibilidade mental morre exatamente assim: alguém chega depois e mede pela régua da atribuição. O zero-click piora o quadro, porque empurra mais orçamento justamente para o trabalho que a atribuição não captura, enquanto quem decide corte continua abrindo o mesmo relatório de sempre. Quem não combinar uma segunda métrica com a diretoria antes do próximo ciclo de budget vai perder essa discussão por falta de prova, com toda a razão do mundo na mão.

A versão centenária do mesmo movimento: o Guia Michelin nasceu como publicação sobre restaurantes para que as pessoas pegassem o carro e rodassem mais. Vendendo pneu. Hoje é instituição por si só, e ninguém lembra que era mídia própria de uma fabricante.

Antes de abrir a vaga: o quadro de alocação

Chegou trabalho novo. Você abre vaga, automatiza ou realoca?

O trabalho é…

Decisão

Por quê

O risco

Repetido, regra clara, base confiável

Workflow

Sequência de passos, sem julgamento no meio

Automatizar a exceção junto e ninguém perceber

Repetido, regra clara, base bagunçada

Arrumar a base primeiro

Middleware sobre dado ruim devolve resposta ruim com cara de boa

Gastar seis meses e concluir que "IA não funciona"

Execução de volume, critério já definido por alguém

Uma pessoa de amplitude + IA

É a vaga do Gen Marketer

Contratar amplitude e cobrar profundidade

Ambíguo, sem resposta certa, com trade-off

Sênior, ou júnior com grit

Senioridade é navegar ambiguidade e complexidade

Comprar tempo de LinkedIn achando que comprou senioridade

Levar informação de uma camada para outra

Nenhuma vaga

É a função que está sumindo

Recriar o telefone sem fio que você acabou de desmontar

As três perguntas antes de assinar a requisição:

  1. Se eu automatizar isso, quem na minha equipe vai saber dizer que a saída está ruim? Se a resposta for ninguém, você terceirizou o julgamento e chamou de automação.

  2. Essa vaga forma alguém? Cargo que não passa por trabalho ambíguo não produz sênior, e daqui a alguns anos você vai comprar essa senioridade no mercado, pelo preço do mercado.

  3. Se eu não abrir a vaga, o meu bônus melhora? Se sim, cuidado: o incentivo está apontado para o lado da decisão, não do problema.

Nenhum dos quatro temas votados era sobre tecnologia. Todos eram sobre uma régua que parou de funcionar: a que dizia se o trabalho estava bom, a que dizia quem estava pronto para subir, a que dizia quem valia contratar, e a que dizia se o marketing tinha dado resultado.

Régua quebrada é problema de gente. E problema de gente a gente sabe resolver: escolher o critério, combinar com quem decide, e escrever antes de precisar defender.

Qual a nota dessa edição?

(pessoas educadas respondem)

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