A internet que eu conheci no começo da minha carreira era completamente diferente do que a que encontramos hoje. Nos tempos primórdios, qualquer busca no Google retornava uma lista de sites relacionados, e as redes sociais efetivamente entregavam o seu conteúdo àqueles que te seguiam.

O funil era claro, com estes dois canais direcionando para o seu site ou blog, onde você podia ter uma estratégia inbound relacionada com a escadinha de post, material rico, sequência de e-mails até engajar em um contato comercial. O inbound old-school.

Esse tempo não existe mais.
Hoje ninguém quer dar espaço para o teu site.

AI Overviews tomaram as buscas, redes sociais não só derrubaram links como o alcance orgânico das páginas e perfis (“comenta para receber!”), e todo mundo tem feito um esforço descomunal para uma coisa:

Que a atenção nunca deixe a plataforma.

Existe uma linha de pensamento que se adaptou a essa realidade.
Zero-Click Marketing.

O mantra deles: vença as plataformas em seu próprio jogo.

O termo foi inventado em 2022 por Amanda Natividad, Chief Evangelist da SparkToro, e seu sócio Rand Fishkin, CEO da plataforma e fundador do SEOMoz. A dupla vai lançar um livro com o mesmo nome (pré-vendas aqui).

Nesta edição, vou explicar o racional e adicionar alguns elementos para você pensar, inclusive indo para o lado oposto do que eles sugerem: uma otimização massiva para IA.

Eu chamei carinhosamente de “uma no cravo, uma na ferradura”.

O desenho fica mais claro numa barra de halteres, o tal Barbell. É o “oposto” de uma curva de distribuição normal, uma estratégia que coloca peso nas duas pontas. Um extremo no conteúdo, outro na otimização.

Te explico como operar Zero-Click sem abrir mão dos seus canais digitais ou site.

Aliás: vou abordar esse tema na minha palestra no Content Experience (24 e 25 de agosto). Leitor Growth Insight tem desconto de 10% com o cupom growthinsights10.

Vamos?

🧠 Tempo para escrever: 14 horas
📖 Tempo de leitura: ~29 minutos
✍️ Na última edição: Hot Takes do Witt no podcast Papo de Gestão

Valeu, Fábio!

Nessa edição você vai ler:

Aprenda os dois lados: Zero-Click Marketing e a otimização extrema

O clique do curioso morreu

POV: estamos em 2018. Comemorando na salinha de marketing da ACE Ventures. Ranqueamos em primeiro lugar para o termo “O que é uma startup”, aparecendo inclusive como featured snippet do Google.

Mesmo como uma explicação bastante básica e topo de funil, o post levava um tráfego orgânico excelente para o site, e a gente conseguia lotar os eventos de pitch e ganhar assinantes de newsletter a partir dali (além de melhorar todo o “suco de SEO” do domínio).

A história se repetia em muitas e muitas empresas. O tal conteúdo de topo de funil, explicativo e mais raso, era ótimo como isca para atrair pessoas curiosas e ainda sem tanta intenção de compra. Estratégias inteiras de blog corporativo baseadas em “O que é [inserir o termo do seu setor] e como funciona”.

Aquele artigo servia para responder uma busca informacional — a pergunta de quem só quer saber o que a coisa é, não comprar a coisa.

  • “O que é um CDB”.

  • “Como funciona a nota fiscal eletrônica”.

  • “Como criar um programa de afiliados”.

O leitor digitava, o Google mandava para o seu blog, e no rodapé tinha um CTA levando para uma landing page que te estimulava a trocar um e-book pelo e-mail dele. Era um pedágio: você respondia de graça para cobrar atenção na saída.

Aí foi passando o tempo e essa linha do gráfico começou a cair. Em 2024, quando a IA começou a entrar nos mecanismos de busca, ela começou a substituir aqueles mesmos posts que a alimentavam.

O Google parou de precisar deles com o AI Overview, resumo gerado por IA que agora abre a página de resultados, acima dos links azuis. A pessoa pergunta, o resumo responde ali mesmo, mastigado, e a busca acaba antes de começar.

O resultado é brutal.

Menos de 1/3 de todas as buscas termina em um clique, segundo o SimilarWeb

Hoje, só 1 a cada 3 buscas termina com um clique (Similarweb em parceria com a SparkToro). A série histórica assusta também.

As pesquisas sem clique eram 45% em 2016, 49% em 2019, 60,5% em 2024 (SparkToro), e agora 68% (2026). São 7,5 pontos percentuais só nos últimos 24 meses, a aceleração mais rápida da década. (Mais aqui.)

Quando a Pew foi olhar gente real buscando, viu o clique cair de 15% para 8% assim que o resumo de IA aparece: quase metade dos cliques evapora só pela presença da inteligência artificial.

Aqui no Brasil o filme é praticamente o mesmo.

Os portais de notícia perderam audiência: 75% deles mostraram declínio, segundo apuração do Willian Porto. O AIO derrubou 20,6% do tráfego de notícias brasileiro, e o CTR do primeiro resultado caiu de 21,4% para 8,93% (Authoritas, nov/2025).

Quem é assinante antigo lembra desse caso que comentamos sobre a HubSpot, referência mundial em marketing inbound, que viu seu tráfego orgânico cair cerca de 80% em 2025. (Eles explicaram o caso aqui.)

Derrocada de tráfego orgânico no blog do Hubspot, dados até o início de 2025.

E que mesmo com esse desmanche ladeira abaixo, eles continuavam avaliando a estratégia de conteúdo deles como amplamente bem-sucedida, com foco em IA (onde eles estão em 35% das respostas da categoria) e canais de mídia proprietários que vão do TikTok às newsletters e podcasts.

Mas ninguém aqui é coveiro de SEO, não. ☠️

Quem morreu mesmo foi o clique de curioso em um post ultra-genérico de topo de funil, bem aquele que hoje você consegue entregar às dezenas com um par de prompts para a IA. Inclusive, trago atualizações importantes para a otimização do teu site.

Seu site tem dois leitores (só um é humano)

Deixa eu te apresentar o novo visitante do seu site.

Ele nunca move o mouse. Não vê sua imagem de headline caprichada, não repara na cor do botão, não sente a rolagem do carrossel de depoimentos.

Ele lê o código, o texto bruto, extrai a resposta e vai embora. E cada vez mais, é ele quem decide se você aparece pro humano depois.

O nome desse cara é AGENTE DE IA.

Tem uma premissa embutida em tudo isso: que o seu usuário é humano. Acho que essa premissa está se quebrando.

Elena Verna, Head of Growth do Lovable

A Elena Verna já deu a letra (aqui): tem cada vez mais agentes de IA interagindo com o teu site no lugar de uma pessoa, geralmente via MCP (Model Context Protocol). Ela pensou nisso como um substituto para interfaces de SaaS sendo acessadas direto dentro dos LLMs, mas vale também para o seu site.

Não basta otimizar teu site apenas para humanos. A IA também precisa ler

Seu site agora tem dois públicos com apetites opostos.

O humano quer ser convencido: prova social, narrativa, imagens lindas, aquele parallax que dá vontade de lamber a tela, GIF que mostra o produto funcionando.

A máquina quer ser respondida: fato limpo, estrutura clara, a informação sem o embrulho de marketing em volta. Quanto mais direto e estruturado, melhor.

Otimizar o site para a máquina é muito similar ao trabalho “boring” de SEO de sempre, mas com roupa nova:

  • Estruturar o conteúdo em resposta direta,

  • Entender os termos de busca e cauda longa,

  • Incluir comparativos com alternativas,

  • Colocar os termos certos nos lugares certos (headers),

  • Responder às objeções de compra em texto,

  • Melhorar tempo de carregamento para o robô,

  • Estrutura de código específica para atender LLMs.

A lista não acaba e inclui muito do que falamos para AI Optimization. É a ponta de performance do Barbell que eu falei: você precisa seguir otimizando o teu site e “pavimentando” a rua que vai para ele, por mais complexo que isso esteja se tornando.

A Zyppy analisou mais de 400 sites vencedores e perdedores na busca de hoje e achou cinco características que separam os dois grupos. Quase 84% dos vencedores deixam a pessoa concluir o que ela veio fazer.

Traduzindo: o Google parou de premiar quem explica e passou a premiar quem resolve. Serve para o humano e serve para a máquina.

Mas tem outras coisas (inclusive defendidas pelo Zero-Click Marketing) que importam cada vez mais: existir fora do seu site (Reddit, YouTube, Wikipedia, os lugares que o modelo lê pra montar a resposta).

O que nos leva a uma pergunta desconfortável.

Se a decisão de compra acontece antes de qualquer clique tanto para a máquina quanto para o humano, onde você precisa estar pra ser lembrado na hora que importa?

A decisão já foi tomada antes de você aparecer

A gente já conhece o tal do 95-5, pesquisa do Ehrenberg-Bass e do LinkedIn de 2021, que afirma que a qualquer momento, apenas 5% do seu mercado está em momento de compra no B2B, com os outros 95% ainda em estágio dormente.

Mas tem outro dado para deixar a sua vida ainda mais desafiadora: quem vai a mercado já vai praticamente de cabeça feita. De acordo com estudo da Bain, entre compradores B2B, 85% compram de fornecedores que já tinham em mente antes de buscar alternativas.

Então mesmo que você entre em uma shortlist (às vezes obrigatória pela regra dos três orçamentos ou desencargo de consciência), a sua chance de vender para aquele prospect é muito baixa.

Junta as pontas: 95% não compra agora, e dos que estão com o talão de cheque na mão, 85% compra de quem já lembrava.

Tal qual Inception, você precisa estar na cabeça do cliente quando mais importa

O que decide a venda mora na memória do comprador, semanas ou meses antes da busca. O André Oliveira conta que já sabe até a loja onde vai trocar os pneus de um carro que ainda nem comprou em um relato na newsletter dele. (“Marketing demora” é ótimo).

A linha do clássico How Brands Grow do Byron Sharp chama isso de mental availability: disponibilidade mental, a facilidade com que sua marca vem à cabeça na hora da compra.

Esse ativo está dentro do lindo cérebro do teu potencial cliente, longe de um possível roubo por parte de qualquer IA.

É onde vamos atacar mais e mais com o Zero Click Marketing.

Como entrar na lista sem depender do clique

Existe uma moldura que separa os canais de marketing em 3 grandes frentes:

  • Owned Media: mídia própria que você controla. Como seu site, seu evento, sua lista de e-mails, sua comunidade no WhatsApp.

  • Earned Media: conquistada. Quando outro fala de você, como na imprensa, creators, social media orgânico, thought leadership, e até busca orgânica.

  • Paid Media: pagou, apareceu. Mídia de performance, eventos patrocinados, SEM, OOH, entre outros.

A distribuição de canais entre cada uma das três frentes às vezes muda de lugar (como no caso onde pagam por campanhas de UGC, user generated content), mas a intenção de todos eles era levar o usuário para o teu site.

Quando falamos do site como mídia proprietária, há aqui um disclaimer: você é dono do imóvel, mas não da rua que traz a clientela.

Com cada vez mais players pedindo pedágio para levar tráfego da plataforma deles para a sua, é aí que mora a briga do Zero-Click Marketing.

Então, em vez de só usar a estrada dos outros (earned e paid media) para levar para a sua casa (owned media), por que não… mostrar direto a sua cara, mesmo em outras plataformas?

O argumento principal da tese é que você crie conteúdo incrível para ser consumido nativamente em cada uma das plataformas que você escolher. Sem implorar o clique.

Confiando que quando o seu interlocutor chegar nos 5% do mercado que realmente querem comprar, ele vai lembrar de você. Disponibilidade mental que chama, né?

Como fazer isso:

Criatividade e conteúdo nativo nas redes sociais

Comece pelo lugar onde a audiência já está. E muitas vezes ela está naquele scroll descomprometido nas redes sociais. Vamos aceitar isso.

Em junho de 2026, pela primeira vez, redes sociais e vídeo passaram a ser as formas mais usadas de acessar notícias no mundo: 54%, contra 51% dos sites e apps dos próprios veículos (Reuters Institute, Digital News Report 2026).

Desde 2020, o uso de sites de veículos caiu 12 pontos. Vídeo de notícia no site do jornal despencou para 23%; nas plataformas, subiu para 69%.

O Zero-Click aceita o combinado: o conteúdo se resolve inteiro dentro da plataforma, sem pedágio de saída, e você recebe em memória o que antes recebia em sessão no site.

Três formas de fazer social media funcionar

A ClickUp montou uma redação. Saiu de 33 mil para quase 500 mil seguidores fazendo humor sobre a dor de quem vive dentro de ferramenta de gestão.

A operação é assumidamente de uma “media company”.

A piada tem consequência comercial.

Um cliente enterprise citou um vídeo piada sobre RH da marca na hora de fechar contrato. Eles já conseguem inferir influência de humor no pipeline.

O Chris Cunningham (founding member e quem cuida de Marketing) sabe que o CEO do McDonald’s segue o ClickUp Comedy. Daí sai o remarketing para leads ABM. Disponibilidade mental virando pipeline rastreável.

Instagram post

A Clay transformou o cliente em produtor de conteúdo.

Casada com a estratégia de criar uma categoria de trabalho com o tal do GTM Engineer, a martech sempre teve uma veia forte para conteúdo com creators. Em vez de contratar influenciador “profissional” externo, ativaram quem já usava o produto e acertaram audiência nichada: 5 mil seguidores de RevOps rendem mais que 50 mil genéricos.

A companhia ainda tem ativações divertidas e virais com a mesma lógica, como o Clay World Records, o guia dos maiores feitos de pessoas usando o seu produto.

É uma coleção pública de tabelas construídas pela comunidade em lugares improváveis, debaixo d’água, em montanha, em jet ski. Vencedores vão para o site e entram no livro anual. Some isso à certificação da Clay University e ao Slack com 20 mil pessoas.

Já a tl;dv abriu a porteira.

A ferramenta de gravar reunião roda o LinkedIn como conta de stand-up, com piada separada para PM, engenheiro, vendas e CS: quanto mais estreito o público da piada, melhor o resultado. São mais de 50 milhões de views no ano (e uma das turmas mais legais no teu feed do LinkedIn).

E o programa de embaixadores não tem curadoria. Qualquer um entra, posta e recebe por impressão, sem mínimo de seguidores. São mais de 10 milhões de impressões orgânicas por mês, e a comédia levou a empresa a passar de 2 milhões de usuários.

Três respostas para o mesmo problema. Uma custa equipe, outra custa base instalada, a terceira custa orçamento variável. E tem mil outros exemplos como Liquid Death, Lovable e Chili Piper, que chegaram por caminhos parecidos.

Founder-Led Growth: o fundador virou o canal

Tema quente no mercado brasileiro esse, o tal do Founder Led Growth (crescer a audiência pessoal de um executivo nas redes sociais a ponto dele ser um canal relevante de aquisição) é um dos bastiões citados no Zero Click Marketing.

Um dos casos de livro nos EUA é o do Adam Robinson. Ele levou a RB2B de zero a US$ 5 milhões de ARR em pouco mais de um ano, com quatro pessoas, usando o LinkedIn como único canal de distribuição.

O que ele faz é build in public: publica o P&L, receita, churn e até erro de pricing na timeline, e quando a concorrente 6sense mandou um cease and desist, postou a carta inteira. Arriscado, mas funcionou. Mas nem sempre é assim: antes, ele mesmo relata que gastou US$ 350 mil no YouTube para conseguir… 3 mil inscritos no canal.

No Brasil, isso é bastante comum.

Fernando Miranda, CEO da Staage e meu amigo dos tempos de EXAME, tem quase 5 vezes mais seguidores do que a própria empresa no Instagram (983 mil vs 202 mil). Ele usa as redes sociais para educar e vender, inclusive o próprio método.

A V4, franquia de assessorias de marketing de que é sócio, conta com outros influenciadores como o CEO Dener Lippert e o Guilherme Lippert, e com o podcast ROI Hunters — que encaixa na tese do conteúdo nativo, e onde o próprio Miranda aparece como host recorrente.

Outro caso emblemático brasileiro é G4 Educação, que ancora uma parte significativa da sua receita vendendo por meio das redes sociais de seus fundadores Tallis Gomes, Alfredo Soares e Bruno Nardon (e de onde saiu a Tay Dantas, criadora da Vinci Society, empresa que promete trazer esse método na prática).

São milhões de seguidores e uma máquina de conteúdo que vai de podcast a live, com postagem e stories todo dia.

Parte dessa turma até admite buscar a polêmica como forma de crescer base e vender em cima (o que eu pessoalmente acho arriscado: crise de imagem do fundador respinga sim na empresa).

Mas não precisa ser gigante para ter uma boa performance com founder-led growth: é só olhar o que faz a Purple Metrics com a Guta Tolmasquim, e mais recentemente com o também amigo Lucas Yokota.

Ou o que a Alice tem com a Sarita Vollnhofer e o Gui Azevedo, que escalaram sua capacidade de trazer leads qualificados com o LinkedIn. Foi muito legal lançar o programa de thought leadership quando estive por lá! Tínhamos até um board físico de papel na parede para contabilizar as postagens de cada um.

O argumento tem dado por trás: 73% dos decisores B2B dizem confiar mais em thought leadership do que no material de marketing da mesma empresa (dados da pesquisa Edelman-LinkedIn de 2024).

Redes sociais ainda são terrenos alugados com o algoritmo como gatekeeper, mas pessoas ganham desconto no pedágio: o engajamento mediano é de 4,7% em perfil pessoal contra 1 a 2% em página de empresa (Sprout Social, Q1 2026).

Reports, dados proprietários e PR

Existem empresas em mercados que são boring demais para tentarem ser ultracriativos, e que os executivos não querem ou não precisam aparecer muito. Ainda assim você tem uma chance enorme de usar conteúdo proprietário para aparecer e ganhar leads qualificados.

O caminho mais barato para fazer outro falar de você é dar a ele o número que ninguém tem. Reports, pesquisas setoriais e levantamentos de dados são incríveis para isso.

O mercado de HRtechs brasileiro virou laboratório disso.

A Caju montou uma redação. O Panorama do RH sai de 59 mil empresas e 127 milhões de transações da própria base. E criaram a Cajuína, frente própria de inteligência e conteúdo, com editores, jornalistas e colunas assinadas. Conteúdo de primeira.

A Swile usa o relatório como âncora de evento. O Anuário de Benefícios Corporativos, feito com a Leme Consultoria (a Company Hero foi parceira neste ano!), está na quarta edição e é lançado no SWLX, evento próprio da companhia, no MASP.

A Comp fez do relatório a máquina de coleta de dados. Para entrar no State of Compensation in Tech, feito com o Distrito, a empresa contribui com o próprio dado. Você dá para receber, e a base gratuita de 750 empresas tech vira o produto.

A Company Hero misturou as duas fontes no Perfil do PJ Corporativo, que junta o que passa pela plataforma com profissionais ouvidos pela Opinion Box. Rendeu matérias na Folha de S. Paulo, Veja TV, ABRH e Contábeis, entre outros veículos, e milhares de downloads (25% deles leads qualificados).

Enriquecemos os dados internos com pesquisa profissional para este report para ganhar corpo e pautar imprensa com dados que ela mesma não tinha. O assunto está em alta, com movimentações no Legislativo e Judiciário falando sobre o profissional PJ.

Um boletim sobre… contêiner?

Print de uma das estatísticas do Boletim DTZ: dado proprietário vira conteúdo de autoridade

E em mercados nada sexy?

Ótimo caso para ilustrar: a ElloX Digital é uma empresa de tecnologia para comércio exterior. Nicho industrial, logístico, produto árido, zero apelo de feed. Foram meus clientes quando eu estava operando como CMO fracional.

Todo mês eles publicam o Boletim Detention Zero, com dados proprietários da operação nos portos brasileiros. Mostram alterações de deadline, detention e antecipação de gate, e os prejuízos que esses atrasos geram.

Em janeiro de 2024, mostraram que 85% dos navios de contêineres no Porto de Santos tiveram alteração de deadline. Em março de 2025, contabilizou R$ 8,9 milhões de prejuízo dos exportadores com armazenagem adicional, detention e antecipação de gate.

O que acontece com esses números? A EXAME publica matéria, o Poder360 hospeda o PDF, o Cecafé distribui para toda a cadeia de exportadores de café. E os dados passaram a alimentar a interlocução do setor com a ANTAQ, a agência reguladora.

Até reunião em Brasília o meu amigo Lucas conseguiu. Uma startup de logística conseguiu cadeira na mesa regulatória publicando PDF e planilha. Nenhum anúncio compra isso.

📚 Leia mais: Marketing de Conteúdo, da estratégia à operação

A prova está na sua mão

Repara no que sustenta esta edição. Os links espalhados por todo lugar. E olha quem são os autores: Reuters Institute, Bain, SparkToro, SEMRush, Ahrefs, Authoritas, AuthoredUp, HockeyStack, Edelman, Comscore.

Quase todo dado que você leu saiu de um relatório proprietário que alguma empresa produziu para ser citada.

A Ahrefs e a SEMRush vendem ferramenta de SEO e publicam estudo sobre queda de clique orgânico, porque o estudo é o anúncio.

A HockeyStack vende software de atribuição e publica pesquisa sobre atribuição quebrada. O dado é verdadeiro e o incentivo é evidente, as duas coisas ao mesmo tempo. Eles produzem o número, imprensa e newsletters repetem, o modelo de IA aprende, e a marca vira referência da categoria sem pagar por clique nenhum.

O relatório funciona porque tem casa fixa, calendário e público cativo. Pensa que até o IGP-M, índice que corrige os contratos de aluguel Brasil afora, é um índice privado da FGV. E todo mês, todo mundo espera por ele. Regularidade importa.

Newsletters: ativo próprio

Se você lembra sesse filme, consulte seu cardiologista para exames de rotina

A newsletter é o único canal desta edição em que a lista de distribuição é sua e vai embaixo do braço de maneira quase que independente de algoritmos. Você usa mídia paga e os canais “alugados” para atrair atenção, coloca eles na sua newsletter, e ganha um potencial de estar na cara do seu público a cada disparo.

Mas esse direito só é bem exercido se você entregar coisa boa, e não um e-mail com as últimas novidades do seu produto (que ninguém quer ler). Encarar a companhia como uma empresa de mídia dá trabalho, mas paga dividendos.

O trabalhador do conhecimento recebe 117 e-mails por dia (Work Trend Index 2025). O seu precisa ser o que dá vontade de clicar e abrir, e não mais um spam de empresa em uma lista fria (chato demais).

Nem um compilado de links, já que o CTR não passa de 5%. A régua que a própria SparkToro usa: eles montam a newsletter para entregar 75% a 80% do valor sem que você clique em nada.

Morning Brew é a maior newsletter de negócios do mundo, e uma empresa multimídia de primeira linha, com dezenas de creators e produtos editoriais. E berço de quem sabe fazer newsletter direito.

A “Morning Brew Mafia” domina essa prática: news de referência no mundo, tem empresas como storyarb e beehiiv nascidas de ex-executivos mestres em conteúdo por e-mail.

Tyler Denk, CEO do beehiiv, plataforma de e-mails que hospeda a Growth Insight, ainda tem o dogfooding completo: roda a Big Desk Energy na mesma plataforma como news independente, mas que fala do negócio para 131 mil assinantes e boa monetização.

Atenção custa caro, e há até M&A’s nesse espaço.

A HubSpot pagou cerca de US$ 27 milhões pelo The Hustle em 2021, com 1,5 milhão de assinantes. Dá uns dezoito dólares por endereço de e-mail — para uma empresa que já tinha o maior blog de marketing do mundo (e que a gente já destrinchou desde a fundação).

Eles publicaram a tese no próprio blog na mesma semana, e ela é seca: uma empresa de mídia embutida dentro de uma empresa de software. Eles seguiram comprando: Mindstream, e a Starter Story em fevereiro de 2026, levando a rede a 2,9 milhões de inscritos no YouTube.

No Brasil um exemplo bem montado é a Cajuína, a frente editorial que a Caju criou e já mencionamos. Ainda por aqui, há a Leite de Cabra, newsletter criada pelo André Leite e Felipe Cabral (outros grandes caras que conheci na Alice) enquanto criavam a Centeni, uma healthtech do zero.

O complexo do build in public é que também precisa contar tudo: eles narram até o fim da startup, em um ótimo post-mortem publicado na própria newsletter, com foto do dia em que comunicaram o time.

Audiência, views e engajamento provam curiosidade. Só venda repetida prova urgência. Não confunda topo de funil cheio com demanda real.

André Leite e Felipe Cabral, na newsletter

Como medir tudo isso?

Aí você faz tudo isso para o cara clicar num anúncio e comprar. (Marketoonist, sempre preciso).

Tudo isso para chegar na diretoria e ser perguntado em 2 dias quantas vendas aquela iniciativa “de longo prazo” já trouxe. Difícil.

A gente se acostumou a um modelo de atribuição muito rápido e muito direto nos últimos 20 anos, e tá na hora de tirar a cabeça disso.

É adblocker, dark social, bloqueio da Apple. Tudo aquilo que joga como “other” a fonte dos seus leads, e o rastreio para baixo do tapete.

A tese do Zero-Click envolve trazer a tecnologia de mensuração de hoje para ir na granularidade quanto preciso, mas também pensar em métricas como se estivéssemos ainda no Século XX: por referência, e não atribuição única (aqui).

Claro, se você é uma multinacional bilionária, consegue pegar até a cor da cueca e todo o histórico de quem compra ou não com você. IA e modelos de coleta e tratamento de dados afinadíssimos fazem o trabalho. E existem mecanismos modernos de Marketing Mix Model, como defendem as brasileiras Uncover e Purple Metrics.

E especialmente na ponta de otimização obsessiva que falei no começo da edição, você precisa ir na vírgula e atribuição mesmo, já que a medida é mais próxima do digital analytics que nos acostumamos a fazer.

Mas vale lembrar um pouco do comportamento humano.

A pessoa lembra do post que viu, do episódio que ouviu, da indicação do colega, e no final credita tudo à busca, porque foi lá que digitou o seu nome no fim (para ferrar o teu formulário de self-reported attribution que você achou que era a salvação da lavoura).

Então troca a régua: mede branded searches, presença em respostas de IA e correlação em vez de só tráfego orgânico, sessões e cliques. Aceita que parte do “other” é a casa do dark social e que você vai mexer alguma coisa ali mesmo sem ver direito.

Nada disso fecha a conta inteira.

Sobra inferência e julgamento humano, sobra um salto de fé — e a Amanda tem a melhor resposta para quem reclama: um painel de correlação não é materialmente mais fictício que a atribuição por clique em que você já confiava.

Some a isso o prazo.

Prazo para o conteúdo ganhar uma forma bem-sucedida, para começar o juro composto de audiência, para maturar o ciclo de venda. Vai um tempo aí. Nenhum desses prazos cabe num trimestre isolado, e é por isso que a conversa é difícil com a diretoria.

Uma no cravo, uma na ferradura

Vou usar o meu trabalho na Company Hero hoje como exemplo desse modelo híbrido entre Zero-Click e otimização.

De um lado, conteúdo de reputação para nos posicionar como “a voz dos PJs no Brasil”: pesquisas proprietárias como o Perfil do PJ Corporativo (ao lado).

Eventos para contadores e RHs, vídeos educativos no YouTube e até humor nas redes sociais para nos aproximar dos perrengues que um PJ passa.

Nada disso tem atribuição limpa. Tem prazo longo, e a gente aceitou.

Eu e a versão impressa do report :)

Do outro lado, um time obcecado por performance, SEO, IA e ampliação de cliques e leads no site — para pegar quem digita o nome da empresa, sequência de features ou o bom e velho “sua categoria + preço/feature”.

Essa pessoa já decidiu que quer comprar, e resumo nenhum rouba esse clique: a briga é entre você e o competidor que otimiza para o mesmo termo, com o anúncio patrocinado na mesma ponta. Aqui a medição é limpa, o prazo é curto e a planilha fecha.

A ponta que você mede paga a conta do trimestre. A ponta que você não mede cria a massa para os próximos 3 anos.

É o Zero Click andando junto com o “caça aos cliques que sobraram”.

Uma no cravo, uma na ferradura.

O Barbell tem duas pontas porque o meio não paga mais.

Sem meio termo,
Felipe Collins

Matriz do Cravo e da Ferradura

Onde cada canal joga, de quem é o terreno e o que dá para medir sem clique.

Canal

Terreno

O que ele faz

Como medir sem clique

Prazo

Site otimizado (máquina + humano)

Imóvel seu, rua alugada

Captura quem já decidiu e alimenta a citação da IA

Presença em resposta de IA, CTR de marca, conversão

Curto

Busca de alta intenção + SEM

Alugado, com pedágio

Fecha venda de quem já lembrava de você

Custo por lead, conversão, ROAS

Imediato

Conteúdo nativo social

Alugado, algoritmo como porteiro

Instala memória por frequência

Alcance, salvamentos, busca por marca

6 meses+

Founder-led / thought leadership

Alugado, com desconto no pedágio

Empresta confiança de pessoa para a marca

Engajamento no perfil, menção, inbound espontâneo

6 meses+

Creators e embaixadores

Alugado, crédito emprestado

Frequência com audiência que já confia

Impressões, cupom, busca por marca

Médio

Reports e dados proprietários

Dado seu, distribuição de terceiro

Pauta imprensa e alimenta a citação da máquina

Menções, downloads, leads qualificados, citação em IA

Médio, e o dado fica

Newsletter

Seu, e vai embaixo do braço

Relacionamento recorrente sem intermediário

Abertura, crescimento de lista, resposta

Longo, com juro composto

O meio (post genérico de topo de funil)

Alugado e sem retorno

Nada. Foi o que morreu

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